«The Congress» (O Congresso) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Quando muito se fala na morte da sétima arte, eis que Ari Folman (Valsa com Bashir) larga a bomba/o ovni do ano.

A premissa aponta curiosamente a arma para Hollywood. Robin Wright, interpretando ela própria (ou uma versão espelhada, vá), numa performance magnífica dotada de um sentido de entrega e auto-crítica louváveis, recebe uma proposta choruda do estúdio Miramount (ninguém adivinhará de onde vem a inspiração, hein?). A proposta consiste no seguinte: a atriz será digitalizada e entrará nos filmes que o estúdio quiser e, em troca, deixará de representar, seja em peças de teatro escolar, seja em teatro de rua. Acabou o trabalho na área, ponto. O seu “avatar” será o sobrevivente a partir da assinatura do contrato. Para complicar a situação, Robin Wright tem um filho com uma doença rara, o que faz com que o dinheiro dê bastante jeito.

Se pela primeira cena, podemos perceber onde o filme se dirige, é a partir do segundo ato que tudo se dilui… o filme expande-se de uma sátira ao cinema a um transe autêntico que nos indaga, qual droga alucinogénica, onde estamos, e quem somos, e aqui há três opções: abandonar a sala algures no tempo, como muitos o fizeram na ante-estreia do filme; ficar no lugar feito pedra, mas sempre em modo de julgamento racional, ou simplesmente ir com o fluxo.

E sinceramente, caro leitor, caso consiga abstrair-se e enveredar pela terceira opção, vai encontrar aqui um filme como nunca viu. Poderá vir-se a lembrar de outros filmes, começando logo com S1m0ne, e passando por Submarino Amarelo, 2001, A Árvore da Vida, Matrix ou Solaris (com o qual partilha o mesmo autor da obra original!). É um facto, sim. Mas é com grande certeza que afirmo que este O Congresso, estará ao nível de originalidade e ousadia do filme mais original e ousado que alguma vez tenha visto. Não será para todos, novamente. Mas se há filme em 2014 que sirva para demonstrar a vitalidade da sétima arte, é definitivamente este.


André Gonçalves

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