
Se filmes como Enough Said forem catalogados na categoria de “filme de domingo à tarde”, então Nicole Holofcener faz os melhores filmes de domingo à tarde da atualidade.
Seguindo um mais corrosivo (e melhor, temos que dizer) Please Give, o filme é em si uma típica história de coincidências amorosas onde cerne da trama se encontra espalhado pelo trailer que Portugal arrisca não ver tão brevemente numa sala de cinema perto. [SPOILERS caso não tenha visto o trailer: ] A história de Eva, uma massagista divorciada que numa festa encontra Albert, um tipo assumidamente gordo e desarrumado, calhando este ser o ex-marido terrível de Marianne, uma das suas novas clientes, dá azo às peripécias habituais da comédia romântica, só que aqui bastante mais certeiras que o restante lote e mantendo-se pelo menos fiéis às personagens retratadas.
De facto, Enough Said pode sim ser um “filme cobertor”, como alguém me disse, para ver em dias chuvosos, mas convém também não menosprezar o talento aqui presente, e que o coloca no patamar acima da média. Se a ação é linear, a maneira como esta é contada mantém-se ainda assim refrescante. Holofcener, como inferia acima, preocupa-se com as personagens que escreve, e é uma escrita sempre perspicaz, quase a chegar ao ponto em que nos perguntamos: “As pessoas falam mesmo assim umas com as outras?”, até nos lembrarmos nós próprios de momentos semelhantes. Não tem papas na língua para caçar pormenores geniais que escapam ao comum dos humanos. Viu-se semelhante qualidade em Please Give, confirma-se aqui que temos uma observadora eficaz do comportamento humano, capaz de transformar esses comportamentos “estranhos” em fortes, se embaraçosas, gargalhadas.
E depois há os atores: é inescapável falar de Gandolfini aqui, sendo este um dos seus últimos (e melhores) papeis em cinema, mas há também que dar o destaque a Julie Louis-Dreyfus, uma atriz que durante anos viveu também na sombra da TV (mais concretamente da série Seinfeld!), e que agora começa finalmente a desabrochar no grande ecrã. O seu “rapport” com Gandolfini é notável e é, a par do argumento bem construído de Holofcener, o que faz Enough Said verdadeiramente brilhar.
O melhor: Louis-Dreyfus, Gandolfini e a esperteza do argumento de Holofcener.
O pior: É um filme completamente previsível.

André Gonçalves

