“Los Amantes Pasajeros” (Os Amantes Passageiros) por André Gonçalves

(Fotos: Divulgação)

Ao décimo nono filme, Pedro Almodóvar decidiu mudar de ares, e viajou aos seus primeiros filmes, largando toda a sobriedade que caracterizou a sua mais recente fase madura, com início já na década de 90, e voltou o seu humor mais “arrojado” a ocupar todo o protagonismo, sem quaisquer dramas.

“Os Amantes Passageiros” desenrola-se quase todo a bordo de um avião que viaja sem trem de aterragem. Nele, os comissários de bordo (gays, claro), os pilotos e os passageiros cruzam-se, e enquanto todos tentam manter a calma perante os factos, as verdades vão saindo, assim como muitas gargalhadas.

Digamos de passagem que “Os Amantes Passageiros”não é um Almodóvar maior, não senhor (o que é desde já desapontante, depois de nos ter entregue uma das suas primas há pouco mais de um ano com “A Pele Onde Eu Vivo”); mas se falta “pathos” ou aura de filme importante, como a sua última meia dúzia de películas, não deixa de ser refrescante ver o cineasta regressar por momentos a um modo inconsequente e brejeiro (mas sempre assertivo e no controlo das operações) de fazer filmes, contratando para tal muitos dos seus atores prediletos, que marcaram presença em inúmeros filmes da sua já vasta carreira. E a verdade é que continua a não haver cineasta no mundo a retratar o absurdo das relações humanas como o cineasta espanhol.

Ainda assim, impossível não sentir, pela primeira vez em décadas, que falta algo a este Almodóvar pós-maduro, mesmo com o seu humor único, e livre que qualquer filtro social a permanecer altamente recomendável…

O Melhor: Nunca nos sentirmos aborrecidos a bordo deste avião, com tanta diversão e os diálogos característicos do cineasta.

O Pior: Aprendemos ao longo dos últimos anos a levar Almodóvar a sério, e este filme é definitivamente dos mais inconsequentes em toda a sua carreira.


André Gonçalves

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