Sonny e Ricardo são uma dupla de polícias que se vê forçada a trabalhar como agentes infiltrados para recuperar uma missão do FBI que parecia ter ido por água abaixo, quando uns quantos agentes são descobertos e assassinados. Assim, a dupla viaja até à Colômbia, fazendo-se passar por profissionais da área dos transportes, oferecendo os seus serviços ao traficante de droga José Yero e sua sócia Isabella (Gong Li). Aqueles comprometem-se a fazer chegar a carga aos EUA. Apesar da suspeita inicial de Yero, é o cérebro da organização, Jesus Montoya que os contrata.
Elenco
Colin Farrell, Jamie Foxx, Li Gong, Luis Tosar, Naomie Harris
Realizado por Michael Mann
Crítica
“Miami Vice” de Michael Mann, que agora nos chega às salas levanta uma premissa interessante: como fazer em 2006, portanto mais de vinte anos passados da estreia da célebre série policial televisiva com o mesmo nome, uma longa-metragem que repegasse os traços gerais desta, que foi considerada um verdadeiro monumento ao excesso e glamour pop dos anos 80. Certamente voltar a dar trabalho à célebre dupla de detectives Sonny Crockett e Ricardo Tubbs, certamente voltar a Miami. Mann fê-lo, substituindo Don Johnson pelo estilizado Colin Farrel e Phillip Michael Thomas por Jamie Foxx. Mas e depois?
Após as primeiras sequências do filme, pareceu claro que Mann, produtor executivo da série original e responsável pelo seu look estilizado, encetou uma operação de extensão e um necessário lifting ao “seu” sucesso anterior. Por extensão, entenda-se, refiro-me à necessária expansão do formato da série para longa metragem . Quanto à segunda operação (o lifting), denota-se uma necessária actualização do look dos seus personagens, do décor, filtrando assim as imperfeições ficcionais de hoje, chaves de sucessos passados, dando a César só o que é de César.
Mas à medida que a história se desenrola, as personagens se dão a conhecer e a trama se adensa, ou seja, olhando em pormenor, vemos que não é bem assim. Se é certo que o filme tem mais de duas horas, o argumento especialmente escrito pelo próprio Mann poderia facilmente condensar-se num episódio de uma hora. Neste típico action film (até com a sequência inicial a servir-nos como isco), embora “vazio” de acção real, as tensões estão sempre à flor da pele e os ritmos são marcados e intensos.
Mas recuperemos a história. Sonny e Ricardo são uma dupla de polícias que se vê forçada a trabalhar como agentes infiltrados para recuperar uma missão do FBI que parecia ter ido por água abaixo, quando uns quantos agentes são descobertos e assassinados. Assim, a dupla viaja até à Colômbia, fazendo-se passar por profissionais da área dos transportes, oferecendo os seus serviços ao traficante de droga José Yero e sua sócia Isabella (Gong Li). Aqueles comprometem-se a fazer chegar a carga aos EUA. Apesar da suspeita inicial de Yero, é o cérebro da organização, Jesus Montoya que os contrata.
Porquê então, apesar da trama simples, o filme conseguir ter estofo para mais de duas horas? Sobretudo devido ao investimento na atmosfera de “Miami Vice” e nos seus ambientes. O que nos faz voltar atrás e pensar a tal operação de cosmética que Michael Mann execução sobre o universo original da série. Este percebeu que muito do sucesso do datado “Miami Vice” vinha dos diálogos sinceros e descabidos, da roupa que os detectives usavam com predomínios de beige, das cores marítimas, do Miami solarengo, dos edifícios em arte déco ou das lanchas e carros artilhados (o célebre Testarossa). Muito de kitch glamoroso e desmiolado da série já não faria sentido, daí a reactualização do mesmo ambiente sem deixar de investir neste. Mas voltamos à mesma, será que o esforço foi de reactualização? Porque bem vistas as coisas, o ambiente cru e soturno de “Miami Vice” (onde os negros estão muito presentes e os vermelhos arredados), a fotografia digital com grão, as cenas de tiroteio não ornamentadas em jeito documental, parecem estar infinitamente mais próximas de “Colateral” ou ”Heat” do que da série popular de que partiu.
Mercê da inabilidade ou fidelidade ao original por parte de Michael Mann, os diálogos são ocos e risíveis, não vendo o excesso de já não pertencerem a esta realidade. As interpretações são simples com pena do protagonismo não estar do lado de Foxx, ou não estivesse Farrel, mais uma vez a roçar o traço caricatural.
Palavra ainda para um final descomplexado e em estilo, que condiz em tudo com a pouca espessura das personagem (apesar dos respectivos lados humanos saírem reforçados com os breves romances que desenvolvem) e o uso, esse sim reactualizado, da banda sonora, que dispensou o “hino” da série de Jan Hammer.
Como tal, “Miami Vice” vale pelo exercício de estilo grave e sujo, um outro “código de vício”, no qual são as personagens que acabam por estar quase sempre em segundo plano. Nunca “Miami Vice” esteve tão próxima da ideia pioneira de “MTV Cops”, com que foi vendida à NBC, decorria então o ano de 83. 6/10…Carlos Natálio
Crítica
Um Ferrari cinzento rosna furioso pelas ruas de Miami. A cálida aragem nocturna da cidade contrasta com a frieza de Ricardo «Rico» Tubbs e James «Sonny» Crockett.
Os dois famigerados detectives imortalizados na série de televisão transmitida entre 1984 e 1989 – na altura interpretados por Philip Michael Thomas e Don Johnson – regressam nesta revitalização cinematográfica, incorporados por Jamie Foxx e Collin Farrell.
Após uma operação mal conduzida, com resultados trágicos, o FBI pede ajuda às autoridades de Miami. Os agentes Sonny (Collin Farrell) e Rico (Jamie Foxx) são destacados para se infiltrarem numa perigosa organização de narcotraficantes, um império dirigido pelo misterioso Arcángel de Jesús Montoya e a sua mulher, cubana com descendência chinesa, Isabella. O caso vai adquirir contornos tensos, com rivalidades internas no grupo criminoso, traições, confrontos, tudo isto complementado com uma perigosa atracção que Sonny aparenta ter por Isabella.
Collin Farrel e o oscarizado Jamie Foxx suportam bem peso considerável das personagens que interpretam, dotando-as do carisma essencial para fazer os papeis funcionar. Mas a realização de Michael Mann (foi produtor executivo da série original) é um dos pontos altos do filme. Um magistral trabalho atrás das câmaras, no seguimento dos que nos habitou em projectos anteriores como «Heat», «The Insider» ou «Collateal».
Com planos dinâmicos, mas sempre com consistência (algo que por vezes falha no trabalho de Michael Bay ou Tony Scott, irmão mais novo de Ridley Scott) e uma cadência adequadíssima ao curso da acção, Michael Mann consegue transmitir ao espectador não só o carácter frenético com que a série se destacou, mas uma rija densidade emocional.
Durante todo o filme é evidenciado o excelente trabalho a nível da cinematografia. Michael Mann, juntamente com Dion Beebe – director fotografia, que já tinha trabalhado com o realizador em «Collateal» – presenteiam-nos com sequências extraordinárias, de um arrojo e de uma envergadura atroz. A dada altura, um plano aéreo das cataratas do Iguaçu surge como pura delícia visual.
As cenas dos exteriores, as perseguições, os tiroteios, sem esquecer a sequência fantástica da viagem que Sonny e Isabella fazem, numa lancha a alta velocidade, rumo a Cuba meramente para tomar um copo, tudo isto assume uma magnitude estonteante. Uma audácia fílmica impar. E esta característica nos punhos de Michael Mann não é uma surpresa, é pura rotina. O cinéfilo mais atento vai também descortinar alguns pormenores, como a deliberada recriação da coloração de imagem dos anos 80, com corres garridas e intensas, complementadas por um peculiar efeito granulado.
Concluindo, estamos perante uma óptima revitalização, que cria um equilíbrio coerente entre a fidelidade à série original e o espaço para a inovação.
Num Agosto tépido em cartaz cinematográfico, vale a pena mergulhar na turbulência de «Miami Vice». 8/10 Victor Melo

