Sinopse
Elenco
Louis Garrel, Clotilde Hesme
Realizado por Philippe Garrel
Crítica
Um dos aspectos mais marcantes aquando do lançamento de num novo filme de Philippe Garrel é seguramente isso mesmo, tratar-se de um filme de Garrel. Ou não estivéssemos a falar de um dos cineastas contemporâneos, em plena actividade, mais considerados. Nome incontornável da Nouvelle Vague e filho político de movimentos revolucionários franceses dos anos 60, tem-nos brindado ao longo de mais de quarenta anos de carreira, com um corpo artístico único, constituído por obras de uma coerência notável e de recuperação dramática dos fios vitais da sua biografia. Este último aspecto está visivelmente demarcado em “Les Amants Réguliers”, última obra do cineasta, vencedora do galardão para melhor realizador em Veneza, no ano transacto.
Esta passa-se num universo que Garrel conhece muito bem: o Maio de 68. Neste, um grupo de jovens, liderado por um poeta idealista, de seu nome François (Louis Garrel, filho do cineasta) luta contra a polícia com vigorosa rebeldia, em pleno Quartier Latin. Mas desse Quartier parece não haver para onde ir com a revolução, por isso, na segunda metade do filme, François e o seu grupo muda-se para a casa de Antoine, um jovem burguês que assume desde logo que não está assim tão interessado no sucesso da revolução, pois o pai deixou-lhe uma soma considerável para viver sem preocupações. Assistimos então, ao lento desmoronar dos ideais revolucionários sob uma espessa camada de fumo de ópio e conversas ocas intermináveis.
Enquanto isso François apaixona-se por Lilie (a espantosa Clotilde Hesme), uma jovem revolucionária que trabalha numa fundição. E também o seu amor segue as mesmas regras descomprometidas de um espírito e de uma geração. Também estas premissas de amor livre, de liberdade sentimental crescem para se tornar regras e esmorecem juntamente com todo o movimento político.
Curioso é verificar que se existe cineasta que possa ter o epíteto de poeta solitário e revolucionário, tal qual o protagonista de “Les Amants Réguliers”, é o próprio Garrel pai. Sempre figura de segunda linha da Nouvelle Vague, trabalhando com orçamentos baixíssimos e erigindo um conjunto de filmes iniciais extremamente herméticos e activistas, reuniu junto de si, uma legião mais ou menos obscura e minoritária de fãs. Ao longo dos anos, essa ambição transformadora foi-se esbatendo e caindo em algum marasmo.
Um dos pontos fortes de “Les Amants Reéguliers” é não abdicar dos traços narrativos do universo Garrel, como um fantasma que sempre volta mas com o qual este já aprendeu a lidar. E como? Neste caso, afastando-se da homenagem à nouvelle vague, da qual emergiu (ao contrário de “The Dreamers” de Bertolucci, com Louis também como protagonista) e encarando aquele período, tão cinematográfico quanto político, como uma atmosfera já “encapsulada”, como um vestígio arqueológico de inegável melancolia e saudade, do qual as transições com efeito irís, esses também de um tempo e de um cinema deslocados do actual, são a tradução formal. Um certo sentimento de “fim dos tempos” (ou de um tempo) está sempre presente na expectativa das personagens, nos planos “vazios” e de respiração daquele grupo de jovens, que perdem a época que estão a viver, suspeitando-se a perda de convicções políticas.
Esta abordagem permite que um filme passado no maio de 68 lance uma proposta de releitura muito interessante desse universo, à luz dos recentes eventos em França a propósito do famigerado CPE (contrato de primeiro emprego). Ainda assim, pode ser apenas a imaginação a trabalhar, e no fundo ser a história aquela que permite reinventar um pesadelo, que os cineastas contemporâneas daquele período conturbado insistem revisitar.
Num primeiro momento, em longos planos sequência, num preto e branco destrutivo (excepcionalmente captado sob a batuta de um histórico, o director de fotografia de “Shoah”, William Lubtchanski), os protagonistas de “Les Amants Réguliers” estão diluídos. Temos apenas acesso a pequenas rebeliões anónimas das massas contra a ordem instituída. Aí, está desde logo presente a noção de relato arqueológico de uma realidade que aconteceu assim, sem mais explicações, sem que o drama aí se entreponha.
No segundo momento, de erosão progressiva dos ideais revolucionários do grupo de jovens protagonistas, a narrativa continua diluída no tempo (daí o ritmo do filme, complicado de digerir). As palavras de ordem revolucionárias saem da boca de François cada vez mais ocas, cada vez com maiores certezas de uma revolução que afinal não vai ser (talvez como as expectativas de dominação cinematográfica das propostas da Nouvelle Vague, saíram de certa forma goradas). E aí, o amor casual e descomprometido entre dois obreiros da revolução vai sendo arruinado em cada passo não dado, na espera de uma utopia sempre adiada, numa aporia que domina o dia-a-dia, inexplicavelmente.
Uma palavra final para uma das sequências finais do sonho de François, directa homenagem aos efeitos libertadores do ópio que estes fumam avidamente, como para abrir portas que só poderiam ser abertas com força bruta. 8/10… Carlos Natálio
Nota: A última obra de Garrel chega às salas portuguesas sensivelmente ao mesmo tempo que a Cinemateca Portuguesa apresenta a segunda parte de uma retrospectiva, que se queria integral. A não perder.…
Crítica
Depois da falhada revolução estudantil de 68, um grupo de jovens retira-se para a mansão herdada de um deles. Aí, partilhando uma vida comunal, dão largas às suas artes, ao consumo de drogas e ao sexo ocasional. No centro deste paraíso hippie está o poeta de 20 anos, François (Louis Garrel, “Ma Mère” de Christophe Honoré, 2004), e a jovem escultora Lilie (Clothide Hesme). O seu romance é vivido de forma distinta pelos dois jovens, ele romântico e ingénuo, ela pragmática e realista. A inércia boémia acaba por substituir o falso idealismo deste jovens. O desequilíbrio emocional e mental acaba por instalar-se na casa, e a dissolução do grupo, precipitará o final de um sonho.
“Les Amants Réguliers” é um lento e extenuante passeio de três horas pelas memórias do cineasta Philippe Garrel sobre o Maio de 68. De carácter claramente autobiográfico, onde Louis Garrel desempenha o papel que teria sido o do seu pai, também não é arbitrária a presença de Maurice Garrel, pai do cineasta. “Les Amants Réguliers” é um exercício nostálgico que saúda a Nouvelle Vague francesa nos seus aspectos mais estéticos. O preto e branco da fotografia de William Lubtchansky é, neste caso, quase literal, sem cinzentos que atenuem os ambientes escuros ou que amenizem a luz excessiva. Infelizmente, junta-se a isto um péssimo trabalho de legendagem, que impede a leitura da esmagadora parte dos diálogos.
O filme “The Dreamers” (2003) de Bernardo Bertolucci (também protagonizado por Louis Garrel) resumia o Maio de 68 a sexo e beleza, mas a versão, supostamente mais realista de Garrel, é desesperadamente aborrecida e pretenciosa. Sendo esta a realidade, então tudo não passou de um entretém para jovens da classe média sem nada melhor para fazer do que atirar uns quantos cocktail molotov e ficar a vê-los arder (lentamente) ao sabor do ópio (ainda mais lento). E com tanta boa música para “colorir” este filme, Garrel opta por um minimalismo onde a música, quando existe, parece estar a substituir emoções que deviam lá estar por outros meios.
E depois há a relação entre François e Lilie, cuja intensidade é mencionada em palavras, mas que as personagens (talvez dormentes de tudo o resto) parecem ser incapazes de transmitir. Entre olhares intensos e sorrisos tímidos somos forçados a completar o puzzle de esperança e desespero vividos por ambos.
“Les Amants Réguliers” é um filme sobre oportunidades perdidas e a necessidade de dizer “adeus”. Talvez Philippe Garrel tivesse feito melhor em deixar o passado, histórico e estético, descansar na sua (e nossa) memória. 4/10 Rita Almeida

