«John Carter» por Paulo Portugal

(Fotos: Divulgação)

Pulp fiction

 
John Carter é provavelmente o super-herói mais antigo do planeta. Celebra este ano um século de existência. Pelo menos, o primeiro herói a sair da mente fértil de Edgar Rice Burroughs, mesmo antes de Tarzan. Aqui se adapta “A Princess of Mars” o primeiro dos onze volumes da série “Barsoon”, criada em 1912. Chegará às nossas salas a 15 de março numa luxuosa produção da Disney, em 3D. E pela mão de Andrew Stanton, o oscarizado autor e realizador de “À Procura de Nemo” e “Wall-E”, naquela que é a sua estreia na realização em imagem real. O resultado é um blockbuster pulp fiction, muito old school e com uma suave patine vintage.
 
Mas voltemos a Burroughs e à urgência de conhecer esta saga. Na altura, no início do século XX, já ERB ficcionava mirambolantes aventuras inter-planetárias, gloriosos combates, naves espaciais, criaturas grotescas e até a criação de uma linguagem marciana. Algo que se tornou impossível de recriar, ainda que tenha servido de inspiração a tantos autores e realizadores à procura de reinos de fantasia. 
 
Vimos “John Carter” na sessão de imprensa antes das entrevistas com a equipa e ficámos com a ideia de que Stanton concretizara um sonho de criança – ele ainda conserva os livros de ERB que lera aos 10 anos de idade. Isto significa que criou um blockbuster, mas com a inesperada visão de um filme vintage. Não deixa de ser curioso ver Stanton a dirigir atores, pouco tempo depois do colega Brad Bird se ter igualmente dado o mesmo passo em “Missão Impossível: Operação Fantasma”.
 
A estreia de Stanton neste formato acaba por ser ajustada. Uma fascinante aventura que procura ser fiel à origem e ao formato atual dos blockbusters. Em conversão em 3D, claro, com naves espaciais, combates em arenas, vistosos espadachins, grotescas criaturas criadas em CGI. Afinal de contas, um universo em que está experimentado. Pode não reinventar o género, mas bebeu no formato “pulp fiction”, as novelas escapistas baratas, surgidas no final do séx XIX e início do século (até aos anos 50), em que ERB se tornou exímio seguidor. No fundo, o entretenimento popular que frequentemente recuperava e misturava os géneros mais diversos. Edgar terá mesmo dito um dia: “se pagam a pessoas para escrever lixo deste nas revistas, então também eu poderei escrever lixo ainda melhor”. Pois é assim que nasce a história que inspirou o seu herói John Carter. Sim, mas com os alegados 250 milhões de dólares da Disney. Agora, a questão é esta: poderá o filme recuperar esse investimento? Os produtores e o realizador estão confiantes. Até porque existe já o design de uma trilogia à espera de luz verde.
 
Ao acompanhar os 132 minutos de “John Carter” percebe-se que Stanton fez o trabalho de casa. Combinou géneros no melhor estilo old school, num misto de western e ficção científica onde não será difícil detetar a proximidade de filmes como “Dune”, “Flash Gordon”, “Guerra das Estrelas”, mas também “Avatar”, “Cowboys e Aliens” e até “Spartacus”. A questão é esta: a base de “John Carter” é o acervo original de onde a cultura popular se tem saciado.
 
  Lynn Collins
 
À frente dos destinos da ação e também do romance está o par Taylor Kitsch (uma estrela em rápida formação) e outra revelação chamada Lynn Collins, que tem ainda tanto por nos dar. Curiosidade: ambos contracenaram em “X-Men Origins: Wolverine”. Aliás, do canadiano Taylor parece certo podermos esperar mais do seu carisma de musculado herói intrépido. Tem alinhados o thriller de ficção científica militarista “Battleship – Batalha Naval”, ao lado de Liam Neeson, o thriller de ação “Savages”, de Oliver Stone e defendido por Benicio Del Toro, John Travolta, Salma Hayek, Blake Lively, à frente de um precioso elenco. Sim, e a texana Lynn Collin está igualmente em grande demanda. Deram-nos ambos entrevistas fabulosas que iremos em breve divulgar.
 
A história conta-se num ápice. Carter é um ex combatente do exército confederado americano entretanto convertido em garimpeiro na Virginia. Ao procurar uma gruta de ouro, encontra um amuleto que o atira literalmente para Marte. E aqui entramos num outro filme. É já em Barsoon (equivalente ao Planeta Vermelho) que fica refém de uma raça de marcianos verdes de quatro braços e chifres de elefante, os Tharks, envolvidos numa épica guerra civil entre humanoides de Helium e Zodanga. 
 
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Fantástica a analogia de ERB a recriar uma outra guerra civil, agora nas planícies desérticas de Marte. Devido à diferença de gravidade (supõe-se), Carter desloca-se em saltos gigantescos e adquire uma força sobre-humana. Ganha em Tars Tarkas (Willem Dafoe recriado em “performance capture”) um aliado poderoso para enfrentar os vilões locais, dominados pelo enigmático feiticeiro Matai Shang (Mark Strong) e o senhor da guerra Sab Than (Dominic West) com pretensão de dominar a cidade de Helium através do casamento forçado com a princesa Dejah Thorris (Lynn Collins) que procura ajudar o príncipe de Zodanga. Uma história algo complexaonde Carter acaba por ficar com o destino do planeta nas suas mãos e, claro, um eminente romance com a Princesa. A certa altura, ultrapassado o humor originado pelas tentativas de comunicação com o linguajar local, Carter surpreende-se quando todos passam a falar inglês. E nada é explicado. Não faz mal, é o Pulp, no seu melhor. 
 
Nesta era de blockbusters, “John Carter” cumpre a receita com tudo aquilo que se deseja ver no cinema de aventuras e ficção científica. Ainda que a sua originalidade tenha já sido sugada pelo tempo. Resta-lhe o facto de ser um filme bem feito, e por quem sabe. E com aquele toque old school, que merece ser apreciado.
 
 
Paulo Portugal, em Londres
 

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