«The Girl with the Dragon Tattoo» (Millennium 1 – Os Homens Que Odeiam As Mulheres) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Para quem não leu o livro, nem viu a versão cinematográfica sueca, esta crítica tem grande spoilers)
 
Por natureza sou contra os remakes, ainda que sistematicamente venham mascarados de «novas versões», mais fiéis ao material original. Veja-se o caso de «Oldboy», e de certa maneira deste «Millennium 1: Os Homens que odeiam as mulheres», versão americana realizada por David Fincher que se segue a uma versão cinematográfica sueca com valor e que também ela foi adaptada a partir da obra de Stieg Larsson, autor que nunca chegou a ver o sucesso que alcançou.
 
Mas afinal o que faz com que toda a gente queira pegar na sua trilogia? A verdade é que estamos perante um trabalho bastante curioso, tenso, um verdadeiro thriller com ramificações religiosas, sociais e políticas com personagens icónicas que nos apaixonam, como Lisabeth Salander, uma verdadeira cyberpunk com um passado negro e com capacidades tremendas no ramo do hacking e investigação. Ao seu lado está Blomkvist, um jornalista sério caído em desgraça por tentar colocar os poderosos atrás das grades (como nós sonhamos com isto hoje em dia). Os livros embarcam também no lado familiar das suas personagens e os segredos acumulam-se até um desenlace entusiasmante e repleto de twists que nos prendem durante milhares de páginas. 
 
Com uma temática tão interessante, e personagens tão marcantes, é fácil entender a razão porque toda a gente quer adaptar esta saga aos mais variados formatos e chega agora a vez dos americanos darem o seu «contributo».
 
Entenda-se que não existem variações na história entre o livro, a versão sueca e esta americana. Assim, voltamos a seguir Mikael Blomkvist, jornalista e editor da revista Millennium. Caído em desgraça após ter sido condenado pelo tribunal por uma reportagem sobre um grande nome da economia sueca, Hans-Erik Wennerström, Blomkvist decide aceitar a proposta de um homem – Henrik Vanger – e procurar a sobrinha (Harriet) desaparecida há 40 anos. É nessa busca que ele se vai cruzar com Lisbeth Salander, uma hacker de renome internacional que o vai ajudar. O problema é que a procura de uma verdade escondida com mais de 40 anos os vai colocar em situações extremamente complicadas, numa família Vanger com diversas personagens com histórias escondidas.
 
E ao contrário do que a campanha publicitária levou a pensar, este não é um filme tão visualmente frenético como seria de pensar, num estilo quase videoclip. Com exceção dos créditos, que parecem ser uma espécie de James Bond Vs Se7en num estilo gótico industrial (à la NIN), o filme é sóbrio, clássico até, ainda que nos detalhes existam algumas diferenças em relação à versão sueca ou ao livro. Note-se por exemplo a estranha relação entre Blomkvist e a co-editora da revista Millennium, algo que passou ao lado da versão sueca, mas que aqui ganha uma abordagem mais próxima da obbra literária. E como este há outros exemplos, como a presença ativa da filha de Blomkvist em decifrar aqueles estranhos números que ele encontrou num diário.
 
Nesse aspeto, esta versão americana é muito mais fiel, mas isso não significa que seja melhor, até porque a maior sensação que temos durante o filme é que tudo acontece de forma muito apressada (apesar das duas horas e meia do filme). Não tenham dúvidas, o livro continua a ser muito melhor que qualquer uma das versões, pois há maior continuidade e detalhes que enriquecem as personagens.
 
Mas se o facto de nuns pontos este filme ser mais fiel ao livro, ainda que de forma apressada, a verdade é que isso retira força às personagens na forma como tudo foi estruturado e apresentado. 
 
Veja-se o caso de Lisabeth Salander, interpretada na versão sueca por Noomi Rapace e na versão americana por Rooney Mara. O tratamento que esta personagem ganha nesta nova versão retira-lhe o estatuto de ícone, até porque esta Lisa é mais vulnerável, tímida e muito menos memorável que as suas congéneres. Muito da culpa disso é do estatuto americano do filme. A famosa cena em que Salander é violada, a que se segue uma temível vingança, não tem o mesmo impacto que tinha nas versões anteriores, até porque o «porco violador» deste filme é mais cliché que o abominável Bjurman do livro. A forma distante com que a cena é tratada, para evitar uma classificação para maiores de 18 anos (que teria efeitos nefastos no box-office do filme), retira força ao caráter de Salander, com reflexos na sua personagem e em todo o filme. 
 
Já Blomkvist (Daniel Craig) está mais fiel a si mesmo, ainda que a cena em que é baleado seja demasiado fugaz para ter qualquer impacto.
 
Depois há ainda as bizarras personagens do clã Venger, tratadas à distância. Apenas Martin Vanger é tratado convenientemente, o que limita em muito a tensão e as possibilidades.
 
Com uma maior fraqueza das suas personagens, o filme ressente-se, ainda que sempre nos fascine pela descoberta do mistério em torno de Harriet. Neste ponto, uma nota positiva para a montagem do filme que coloca quer Blomkvist, quer Salander à procura de pistas de forma simultânea e efetiva. É sem dúvida a grande mais valia do filme.
 
Ainda assim, os danos já estavam provocados e por isso mesmo, este «Millennium: Os Homens que Odeiam as Mulheres» é mais um complemento do que um filme que traga efetivamente algo de novo. Se o virem e não conhecem nem o livro, nem a versão sueca, vão ficar fascinados, mas acreditem que há muito mais para além daquilo. Já no filme sueco se sentia isso, mas aqui ainda se nota mais, pois até o final da história de Harriet perde em termos de impacto emocional.
 
O Melhor: Há elementos omissos na versão sueca que ganham algum relevo
O Pior: Lisabeth Salander perde força e o estatuto de ícone. Ronney Mara nem é totalmente responsável por isso

Nota: Executem um exercício durante o filme. Contem a quantidade de publicidade que o filme tem «camuflada». Até me admira o Happy Meal da Mcdonald’s não dar bonecos da Lisabeth Salander nas suas caixinhas…
 
 
 Jorge Pereira
 

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