Eu sei que um dos códigos base do trabalho de um crítico deveria ser tentar ter o mínimo de expectativas – quer positivas, quer negativas – sobre a obra que vai visionar. Na teoria é tudo muito bonito, mas na prática somos todos humanos, e somos todos fãs e detractores de certos e determinados artistas. No caso do realizador bósnio Danis Tanovic, calhou-me embirrar com a sua primeira longa-metragem – o aclamadíssimo “Terra de Ninguém”. Achei-o um exercício básico, demagogo e até penoso, repetindo a sua mensagem até à exaustão. As expectativas à entrada para “Os Olhos da Guerra”, o seu último filme a chegar até nós, eram portanto abaixo de zero. Para ajudar, tinha sido pior recebido que “Terra de Ninguém” e até lançado para as prateleiras dos clubes de video em muitos territórios. Aqui demorou 2 anos mas chegou. Ah, e para agravar mais, surgia descrito como outro filme sobre a guerra…
Mas a verdade é que “Os Olhos da Guerra” surpreende q.b., com um olhar honesto e pungente sobre os efeitos psicológicos que a guerra pode ter num “simples” fotógrafo de guerra (Colin Farrell, em mais uma performance irrepreensível, a adicionar ao leque de excelentes momentos que o actor tem realizado nestes últimos anos). Farrell é Mark, um fotojornalista enviado a cobrir várias guerras com o seu amigo David. Na sua última expedição, para cobrir o conflito no Curdistão, Mark separa-se de David e sofre um acidente no rio. Quando finalmente volta a Dublin, David ainda não regressou… Entretanto, Mark enfrenta stress pós-traumático e a sua namorada pede ao seu avô (Christopher Lee numa daquelas aparições “mágicas” dignas de uma lenda) ajuda.
{xtypo_quote_left}“Os Olhos da Guerra” surpreende q.b., com um olhar honesto e pungente sobre os efeitos psicológicos que a guerra pode ter num “simples” fotógrafo de guerra” {/xtypo_quote_left}É uma história simples, de um desenlace simples, mas que funciona muitíssimo bem no seu tempo. O filme move-se a um passo aceitável, e mesmo que se possa cometer o erro de se desvendar a ponta do “segredo” demasiado cedo (um segredo que não será assim tão difícil de adivinhar, de qualquer das maneiras), fá-lo com destreza suficiente. É tudo muito razoável, de facto… e de tão razoável e certinho, será difícil ser memorável, ou o gerador de paixões que foi “Terra de Ninguém”. Ainda assim, parece-me injusto ver este filme condenado a um destino tão inglório como ir “directo para dvd” – como o foi em mercados como o norte-americano. Ao menos aqui em Portugal terá uma merecida vida em cartaz, por muito diminuta que seja.
O Melhor: Colin Farrell.
O Pior: A falta de maior ousadia.
| André Gonçalves |

