«Melancholia» (Melancolia) por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

As obras de Lars Von Trier têm constantemente a habilidade de nos prender às suas questões muito após o mero visionamento da obra. E como de costume, a estética deste projecto é aprimorada, cabendo às suas duas actrizes principais a capacidade de nos puxarem para a comoção das suas vidas.
 
Propositadamente separado em duas partes, antecedidas com uma espécie de prólogo que resume o que vamos ver mais à frente, «Melancholia» inicialmente acompanha aquele que deveria ser o dia mais feliz da vida de Justine (Kirsten Dunst), uma mulher que acaba de se casar mas que sofre de uma profunda depressão, uma doença que o próprio cineasta viveu recentemente (que ocorreu no período em que ele filmou «Anticristo») e que claramente afectou o seu trabalho. 
 
Somos assim confrontados com o seu estado autodestrutivo, como se uma força invisível lhe retirasse a alma e a força e a deixasse noutro plano de existência, incompreensível para a maioria dos presentes que apenas a querem ver feliz, pois é suposto ser o dia mais feliz da sua vida. É nesta incompreensão da doença pelos restantes, e na passividade forçada da vítima, que a primeira metade da obra se movimenta, onde apenas a irmã de Justine, Claire (Charlotte Gainsbourg, “Anticristo”), parece estar preparada para lidar com essa força invisível e avassaladora que consome a sua irmã. 
 
Nesta fase, destaque natural para Kirsten Dunst, uma actriz que fortemente trabalhada na sua caracterização e pequenos gestos/tiques carrega em si um semblante sombrio, mas não necessariamente forçado ou caindo no overacting. No fundo, ela passa mesmo a ideia de que está possuída por algo que não consegue contrariar e que se manifesta em muito mais que a mera tristeza, algo com profundas consequências físicas que a degradam a olhos vistos.
 
Porém, o próprio Von Trier, sem nunca ser demasiado explícito, apresenta pequenos detalhes que podem ter influenciado a chegada a este ponto, sejam empregos e patrões odiáveis, ou relações parentais disfuncionais de guerrilha entre a crueza, a excentricidade e o alcoolismo. Neste ponto, destaque para a ligeira, sofisticada, mas impactante prestação de Charlotte Rampling, Stellan Skarsgård e John Hurt.
 
Já na segunda parte da obra acompanhamos a chegada do misterioso planeta «Melancholia», que os cientistas inicialmente pensam apenas rasar a Terra. Longe do estilo «catástrofe natural» e do histerismo à Roland Emmerich, a obra centra-se agora mais em Claire, uma mulher profundamente afectada com a potencial chegada do fim do mundo. Curiosamente, Von Trier carimba aqui a insignificância e incapacidade do homem perante o Cosmos, apresentando de forma densa e tensa a incapacidade do ser humano para com elementos que não pode controlar: seja o fim do mundo, seja uma doença depressiva incapacitante. Claro está que o realce neste «segmento» volta a ser a actriz Charlotte Gainsbourg, que com (mais) uma interpretação magistral consegue, conjuntamente com todo o trabalho estilístico da obra, captar todos os nossos sentidos e levar o nosso pensamento mais além.
 
Ainda assim, «Melancholia» acaba por ser um dos trabalhos menos controversos (para não dizer nada controverso) de um cineasta habituado a chocar no seu passado recente. E apesar de ser um filme sobre o fim do mundo, focado no microcosmos de quatro pessoas (Gainsbourg, Dunst, Kiefer Sutherland e Cameron Spurr), este trabalho talvez represente uma mudança de direcção do trabalho do cineasta que, na minha humilde opinião, nunca conseguiu mais atingir o cume da excelência hipnotizante desde o distante «Europa», realizado no início dos anos 90.
O Melhor: As interpretações de Dunst e Gainsbourg e o trabalho da cinematografia. 
O Pior: Não é um filme controverso, mas Von Trier é. E esse protagonismo, que o próprio é responsável, acabou por abafar mais o filme e destacá-lo mais a si próprio
 
 
 Jorge Pereira
 

Últimas