«Nunca vi uma cabeça de um humano tão semelhante à de um macaco».
Assim começa «A Vénus Negra», um filme inspirado num caso real e que chega aos cinemas como o mais recente trabalho de Abdellatif Kechiche – realizador de obras como «A Esquiva» e «O Segredo de um Cuzcuz». A frase, polémica, era um princípio básico da ciência no século XIX e foi proferida pelo anatomista Georges Cuvier. Um grupo de colegas de renome aplaudiu efusivamente esta afirmação.
Depois disto viajamos até uns anos antes e somos introduzidos a um espectáculo macabro numa feira de horrores em Londres. Aí, Hendrik Caezar (no filme, interpretado por Andre Jacobs) é o animador que procura atrair os seus espectadores para o terrível animal que esconde numa jaula. Lá dentro está Saartjie, uma mulher africana que pertence à mais antiga etnia humana estabelecida na parte meridional da África, que os primeiros invasores europeus chamaram de hotentotes ou bosquímanos. Agora ela está encarcerada e tal como um leão ou outro animal selvagem de um circo ela é exibida para temor mas entretenimento do público. Todos querem ver a «Vénus Hotentote». Claro que tudo é um «embuste» e a mulher não vive na jaula, apenas executa um papel teatral. Isto é o que Caezar usa para se defender dos ataques que o acusam de ter uma escrava,mase é isso que Saartjie também crê, apesar de preferir que ninguém lhe tocasse durante o espectáculo. Progressivamente as apresentações ficam cada vez mais agressivas, principalmente quando, já em Paris, ela fica sob as ordens de Réaux (Olivier Gourmet), virando atracção para a corte e para a nobreza repleta de libidinagem e muito interessada em espectáculos eróticos.
{xtypo_quote_left}ao tornar esta obra sobre a coisificação e a perda de humanismo dos indivíduos, Kechiche torna o filme intemporal, ainda que tão sabiamente datado. {/xtypo_quote_left}O filme embarca então numa verdadeira dualidade entre escravatura e liberdade, entre arte e degradação humana, entre o estudo científico e a caça à glória, focando temas como o colonialismo, o racismo, a ignorância, e o mundo do espectáculo e das ciências. Mas mais do que estas temáticas particulares, a obra foca-se na derradeira tentação do homem, que é a sua atitude voyeurista e de objectificação, como se tudo fosse justificável para servir de espectáculo ou em nome da investigação. Isso mesmo fica demonstrado quando as ciências se aproximam da jovem. Aí mesmo, ela não deixa de ser um objecto, mesmo depois de morta: sendo medida, moldada e dissecada. E ao tornar esta obra sobre a coisificação e a perda de humanismo dos indivíduos, Kechiche torna o filme intemporal, ainda que tão sabiamente datado.
Assim, este cineasta consegue um trabalho bastante introspectivo que tem como grande vantagem (mas também desvantagem) algum vazio emocional, o que provoca mais desconforto que comoção. Aliás, é frequente o espectador sentir-se desconfortável (especialmente quando o filme entra no campo da escravatura/espectáculo sexual) e até nauseado tal a violência psicológica e mesmo física de algumas cenas. Claro que tudo isto é empolado pela tremenda interpretação da cubana Yahima Torres, que literalmente enche o ecrã com a sua presença e interpretação.
Se ainda não desligaram os neurónios nesta verdadeira silly season cinematográfica, então «A Vénus Negra» é um filme a não perder….
O Melhor: Yahima Torres
O Pior: Talvez o grande problema do filme seja a sua excessiva duração (aproximadamente 160 minutos)
| Jorge Pereira |

