Há meses atrás, a propósito da exibição de “Torre Bela” no Estoril Film Festival, sonhava com um documentário que me contasse o presente das personagens tantos anos depois do sonho da ocupação da propriedade. “Linha Vermelha” vem preencher esse sonho e mais: descontrói e revela a participação de Thomas Harlan, realizador de “Torre Bela”, na ocupação e nos acontecimentos filmados.
Com o passar do tempo, há sempre uma tendência perversa de os registos que existem de determinado acontecimento se tornarem o discurso oficial, por oposição à memória incerta dos testemunhos orais. Quando José Filipe Costa, realizador deste filme, preparava a sua tese e iniciou os contactos para fazer este filme, deu conta de que muitas vezes se recorria ao filme como prova do que teria acontecido naquela época, apesar de entrevistas e outros registos, vídeo e audio, entrarem em conflito com o que se vê. “Linha Vermelha” é um estudo sobre esse fenómeno, mostrando a diferença entre os diversos discursos, a participação do realizador alemão nos eventos e a manipulação das imagens.
É um filme essencial para qualquer estudante de cinema ou amante de documentários, mostrando as limitações e as implicações morais desse género de uma forma precisa. Para quem conhece e gosta de “Torre Bela” é um complemento indispensável, fazendo os dois uma double feature estonteante que poderá, só por si, iniciar muitas pessoas ao consumo crítico de cinema documental. Não é, no entanto, necessário ter visto o filme “Torre Bela” para se poder apreciar e perceber o que este filme pretende.
O Melhor: O concentrar no filme original, não discutindo acções ou ideologias.
O Pior: Se calhar falta contexto ideológico adicional para a compreensão a fundo dos motivos de Harlan.
| João Miranda |

