Raquel Pacheco, Bruna, Bruna Surfistinha. Todos este nomes são uma pessoa só, e todas elas e as suas transformações estão em destaque no filme “Bruna Surfistinha”.
Baseado nos escritos da própria Raquel Pacheco, e no seu livro ‘O Doce Veneno do Escorpião’, esta longa-metragem com a realização de Marcus Baldini, um homem mais habituado a comerciais, procura, à sua maneira, fazer através relato da sua protagonista, o que “Christian F” fez nos anos 80.
Assim assistimos a uma jovem de classe média paulistana que é uma profunda inadaptada com a vida, com a sua família e com a escola. Em casa ela vive constantemente em sofrimento com o silêncio do pai, a tristeza da mãe e as criticas do irmão. Na escola é o patinho feio, vítima dos colegas mais ricos que se aproveitam da sua alienação social para obter algo. A verdade é que Raquel não quer depender de ninguém, e funciona como uma espécie de alma triunfante que se acha capaz de tudo. Até ir trabalhar como garota de programa e abandonar a sua família.
A Raquel vira então a Bruna, uma jovem tímida mas que sabe lidar bem com o sexo e com o que os homens querem das relações. Como a sua personagem diz, eles querem é atenção e sentirem-se valorizados. Não demora muito até Bruna ser a Rainha da casa onde trabalha, o que provoca algumas crispações com prostitutas mais antigas. O seu primeiro cliente acaba por ser aquele que a acompanha em toda a obra.
Com o sucesso nascem alguns vedetismos e outros conhecimentos no mundo das garotas de programa, e não leva muito tempo a que Bruna saia da casa onde trabalha e comece a viver sozinha e a atender os clientes. A Bruna transforma-se em Bruna Surfistinha, sendo o florescimento dos blogs, como meio de comunicação, que muda radicalmente a sua vida. Cria um blog como promoção do seu negócio, mas rapidamente percebe que tem ali uma mina de ouro, escrevendo sobre as suas experiências, começando a ter muitos fãs e seguidores. A sua vida leva uma grande volta e toda a gente parece agora querer ir para a cama com ela.
Com grandes poderes e a fama, Surfistinha cai em todos os lugares comuns da vida e do cinema , entrando numa espiral de drogas que quase a destrói, e levando todos a se afastarem dela. A decadência é uma realidade, quer do Blog, quer da própria Bruna Surfistinha, que vai acabar por quase se destruir.
Como disse em cima, Bruna Surfistinha e a sua história remete-me para “Christian F”, um drama que mostrou à classe média alta que existia um mundo camuflado e tenebroso bem por baixo dos seus narizes. Aqui o espectador já conhece esse mundo, mas ainda fica chocado com a quantidade de pessoas que acede a ele, e com a ligeireza moral para com isso.
Não trazendo nada de novo, restava a Marcus Baldini tentar ao menos transmitir o que o Blog ia dizendo, e pode-se afirmar que consegue parcialmente o seu resultado. E para conseguir que o seu filme seja interessante, era necessário alguém que desse a força e a densidade dramática necessária que Raquel, Bruna e especialmente a Bruna Surfistinha precisava. Deborah Secco cumpre bem a sua função, sempre bem acompanhada pelos seus colegas que se esforçam em dar força a personagens secundárias, mas com relativa importância na história.
Assim, e mesmo não causando o impacto de ‘Christian F’ nos anos 80, “Bruna Surfistinha” é uma obra com diversos méritos e um relato importante para demonstrar que do sucesso à decadência são menos passos que os fantasiados na cabeça de muitos…
O Melhor: Raquel a tornar-se Bruna
O Pior: Um filme de lugares muitos comuns
| Filipe Silva, em São Paulo Março 2011 |

