
Hugh Jackman é um tipo porreiro. Isso é um facto. Basta ver o seu trabalho a apresentar os Oscars do ano passado e percebe-se que o senhor tem um estilo muito próprio que consegue incorporar nas personagens que desempenha.
Com a saga dos “X-men” de 1999, inicialmente realizado por Bryan Singer ( “Valquíria”, “Os Suspeitos do Costume”), Jackman conseguiu ganhar o apreço dos exigentes fãs de banda desenhada ao desenvolver o carisma que está associado a Wolverine, dando uma intensidade animal a uma das mais acarinhadas personagens do universo Marvel. Nem mesmo a sua altura foi um drama (Wolverine é referido várias vezes como pequenote na BD), portanto, foi um caminho que se formou e que na verdade marca a carreira de Jackman.
Com mais dois filmes sobre os mutantes mais poderosos do planeta, ” X2 ” de , também realizado por Bryan Singer e “X-Men-The Last Stand “, desta vez nas mãos de Brett Ratner, ficou pouco mais por contar, já que a saga da Fénix Negra foi explorada neste último filme, colocando um ponto final nas histórias destes heróis que se podiam levar ao cinema e claro, que fizessem sentido para o grande público especialmente para o que não conhece a banda desenhada.
A opção tomada foi colocar o foco nas personagens que se destacaram nestes três filmes, e claro está, na primeira a ter direito a um filme em seu nome, que só poderia ser Wolverine.
” X-Men Origins: Wolverine ” é baseado no livro de Barry Windsor-Smith’s “Weapon X”, que explora os antecedentes de Logan antes de pertencer à equipe dos superheróis, dando a conhecer como adquiriu as famosas garras de Adamantium no projecto Arma X e a história por detrás da conflituosa relação com Victor Creed, o seu arqui-inimigo.
Como fã das histórias de Wolverine (orgulho-me de dizer que tenho quase todas as sagas desde ” Weapon X” a ” Origins “), as minhas expectativas eram altas quando entrei na sala de cinema. Infelizmente saí com um ar desolado como de quem tinha ido ver o Quarteto Fantástico. Talvez os meus níveis de exigência sejam demasiado elevados, mas depois de ver a adaptação de “Watchmen ” por Zach Snyder, não me posso deixar de pedir algo grandioso.
Mas vamos a factos.
O problema não reside nas personagens principais. Hugh Jackman continua a ter um bom desempenho no papel principal, apesar de não ser muito diferente do que já vimos nos outros filmes dos X-Men, faltando-lhe um pouco mais de profundidade ou até mesmo de momentos loucos de agressividade que caracterizam Wolverine.
A surpresa está essencialmente em Liev Schreiber, que interpreta Victor Creed na perfeição, como um antagonista mais que violento, sem grandes rodeios e que transpira sangue por todos os poros. A própria roupa que usa dá-lhe um ar macabro dando a entender que sempre que ele aparece, alguém vai dizer adeus à sua participação no filme.
Quando chegamos às personagens secundárias aí a coisa complica-se. Tenho a sensação de que as personagens adicionais estão lá para preencher lacunas de narrativa que não funcionam sem elemento condutor, criando a ilusão de que elas têm um papel minimamente importante para o desenvolver da acção. É exactamente o contrário. Gambit ( Taylor Kitsch ), Deadpool (Ryan Reynolds ) e Wraith ( Will I Am ) conseguem dar algum ar de graça durante os 10/15 minutos que aparecem, lançando umas larachas cómicas ( especialmente Ryan Reynolds, como já tinha feito em Blade Trinity ).
Agora, as restantes personagens secundárias não aquecem nem arrefecem, especialmente Dominic Monaghan que faz de Bolt. Se alguém me puder ajudar a perceber quem ele é na BD, agradecia porque nunca ouvi falar.
Apesar de ter um início auspicioso, mas algo dejá vu em “Watchmen”, o filme começa a perder-se no argumento mal construído ao fim de 25 minutos. É justo dizer que o público menos aficionado ficará cativado pelo modo como Logan e Creed se juntam ao projecto Arma X depois de terem combatido nas principais guerras deste e do século passado. Contudo, após um determinado acontecimento fica-se com a sensação de que todo o filme vai andar em roda do sentimento de vingança e isso é algo que já vimos em múltiplos filmes. O que varia é que em vez de armas de fogo temos garras.
A falha do argumento está inteiramente ligada à aposta fracassada num realizador, Gavin Hood ( realizou ” Tsotsi” ) que assumiu desde o príncipio que não era fã da banda-desenhada, o que se depreeende por racíocinio lógico, que não conhece as personagens e as ligações que existem entre elas. Sem querer revelar aos leitores, posso apenas dizer que acontecimentos que ficam para sempre marcados na história da BD são completamente deturpados em prol de ligações entre cenas. Isto torna-se especialmente grave no últimos 15 minutos do filme, em que ainda se tenta fazer uma aproximação ao primeiro ” X-Men ” como que se por alguma forma milagrosa, os dois filmes tivessem ligação possível.
Se o objectivo de Hood era criar um filme cativante para o grande público, então conseguiu-o. Enche o ecrã com tipos aos saltos, momentos de acção bem filmados, umas tiradas cómicas aqui e ali e está feito. Como referi em cima, sou algo exigente no que toca a adaptações de banda desenhada e de um modo geral, este “Wolverine” não me traz nada de novo depois do que vi em ” X2 “.
Fico com receio para o próximo ” X-men Origins ” que se fala que será sobre Magneto.
O Pior: A estrutura desorganizada do argumento, sem consideração pela história original.


