“Che – The Argentine” por Filipe Carvalho

(Fotos: Divulgação)

 

 

Em 1959, deu-se a Revolução cubana com a queda de Fulgência Batista e a subida ao poder do até à pouco tempo líder cubano, Fidel Castro. No entanto, o que fica para a história é outro homem, que dá nome e imagem a revoluções por todo o mundo. Ernesto ” Che ” Guevara tornou-se mais do que um símbolo. A fotografia que Alberto Korda lhe tirou em 1960 é hoje um marco inter-cultural que vemos em t-shirts, quadros, pins, ténis ou mesmo em publicidade. E porquê? Quem foi este homem que hoje representa a luta por ideais?

Com tantos filmes feitos sobre a sua vida de guerrilha, livros que falam da sua relação com Fidel Castro, da sua dedicação à causa cubana ( sendo ele Argentino ), estava curioso para ver o que Steven Soderbergh ( ” Ocean’s Eleven “,” Traffic “, ” Bubble ” ) seria capaz de fazer com esta história que tem tanto de complexa como de mítica, sabendo que está dividida em dois histórias, este ” Che, O Argentino ” e ” Che, Guerrilha “. Com filmes de culto no seu currículo como ” Erin Brockovich “, que deu o Oscar a Julia Roberts, e ” Traffic “, Soderbergh dedicou-se a projectos menos atraentes ao público como ” Full Frontal ” de 2002 e ” Solaris ” do mesmo ano, num remake do filme de Andrei Tarkovsky de 1972. Nos entretantos, filmou o mais comercial dos seus filmes ” Ocean’s Eleven ” que contou com um elenco de luxo capaz de levar qualquer mulher à loucura donde se destacam George Clonney, Brad Pitt e Matt Damon. Este foi o início de uma saga que contou com mais dois filmes, que verdade seja dita, perdem muito gás em comparação com o primeiro.

Mas, refiro tudo isto para demonstrar que uma das qualidades de Soderbergh é jogar com o comercial em Hollywood e com o indie, mantendo quase sempre um profissionalismo acima da média que só me recordo de ver em Gus Van Sant.

Portanto, como era esperado, estava com altas expectativas para este filme que ainda por cima conta com um dos melhores actores a trabalhar em Hollywood ( novamente, na minha modesta opinão ), Benicio del Toro como Ernesto ” Che ” Guevara. Mesmo ainda quando soube que seria ele a representar o médico argentino, pensei cá para mim: ” Era a única escolha plausível. “. Também tinha acabado de ver o fantástico ” Things We Lost in The Fire ” e tinha na mente a sua perfeita interpretação de um drogado que perde o melhor amigo e ao procurar tratar do seu vício, ajuda a esposa do seu amigo a aceitar a perda.

Para ser sincero, quando acabei de ver esta primeira parte, o meu primeiro impacto era que tinha sido defraudado nas minhas expectativas. Que faltava algo. Que não esteve presente o porquê do nascimento do mito de ” Che “. Mas, uma hora depois, dei por mim a pensar novamente no filme e cheguei à conclusão de que o que Soderbergh pretendia era contar a história de uma revolução, na qual Ernesto teve um papel fundamental, e não focar a sua atenção apenas no homem. Não se trata de um filme biográfico. Pelo contrário, o seu foco vai para a Revolução cubana, para as táticas de guerrilha, para o recrutamento do povo cubano. É, muito provavelmente, o twist deste filme. Acredito que muitas pessoas irão ver o fime com a ideia de que vão saber mais da vida de Che, mas isso não acontece. Acredito que muitas pessoas vão ficar desiludidas por isso, contudo, é esta perspectiva diferente que dá entusiasmo à obra. Soderbergh arrisca em pegar naquilo que as pessoas não estão à espera e dá-nos uma visão simplista, mas eficaz, do homem que por muitos era considerado como implacável com os sus inimigos e dedicado aos seus companheiros, ajudando os feridos enquanto lutava contra os seus graves problemas de asma.

A interpretação de Del Toro assenta como uma luva nesta visão, já que não se deixa levar pelo entusiasmo do papel e deixa-se ficar pelo minimalismo que só sobe de tom nas cenas em que discursa nas Nações Unidas defendo a famosa máxima ” Pátria ou Morte “. Aqui sim, vemos o carisma de Che Guevara vivo, intensificado pelo modo como é filmado, a preto e branco, com planos apertados da sua imagem. Enrolado à interpretação, o argumento recorre a constantes saltos para o passado como se fosse um puzzle que rapidamente se constrói, denotando a importância que Soderbergh deu ao processo revolucionário, em vez de fazer mais um filme sobre um ícone em que tudo depende da interpretação e da caracterização como aconteceu com ” W. “, o biopic de Oliver Stone sobre o ex-presidente George Bush.

Para quem não está habituado a filmes deste realizador, o mais provável é sair da sala de cinema e ficar com aquela cara de que se calhar mais valia ter visto o filme quando sair em DVD. Para os que sabem um pouco mais do seu trabalho, imagino que vão sair satisfeitos com vontade de ver a segunda parte que só irá para a salas de cinema em Abril ( apesar de noutros países, as duas películas terem sido exibidas em conjunto. )

O Melhor: O argumento não linear e que foge ao conceito de biopic. Também de referir a aposta de Soderbergh em fazer um filme quase todo falado em espanhol.

O Pior: Alguma falta de ritmo que dá a sensação de que o filme se alonga um pouco mais do que devia.

A Base
“imagino que vão sair satisfeitos com vontade de ver a segunda parte que só irá para a salas de cinema em Abril … 7/10
 
Filipe Carvalho
 
 

 

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