
Lembram-se da dona de casa que teve direito a uma festa surpresa por parte dos amigos e familiares e foi apanhada de pernas abertas com o cão a lamber-lhe o sexo coberto de manteiga de amendoim? E da chearleader a quem descobriram no estômago quase meio litro de sémen? Ou então do homem, encontrado todo nu e quase morto na banheira por ter tentado a auto-asfixia erótica?
Por alguma razão os hospitais têm equipamento especial para retirar alguns objectos estranhos do corpo. Ok…Estou mesmo a falar disso. Todos nós já ouvimos falar da garrafa de champanhe, do hamster ou da lâmpada florescente enterradas em cavidades corporais que levam as pessoas às urgências. Esses são os colegas de Victor na sua terapia para pessoas viciadas em sexo. É aí que o molestado reencontra o molestador e a prostituta o cliente. É aí que mesmo o pior felattio do mundo é superior ao melhor pôr-do-sol, ao riso das crianças ou ao cheiro duma rosa. É aí que Victor e o seu melhor amigo, Denny, procuram a cura para os seus males.
Mas isto não é “In Treatment” e tal como em “Fight Club”, as acções do grupo de apoio são apenas um objecto no meio de uma história maior. Victor trabalha num parque temático recreando o passado, ou como ele diz, representando a espinha dorsal da América colonial. As suas noites são divididas entre o grupo de apoio, Denny e as visitas à sua mãe, uma mulher com Alzheimer que se encontra hospitalizada.
De forma a arranjar dinheiro para pagar o tratamento da mãe, Victor simula em restaurantes ficar engasgado quase até morrer. Assim, ele constantemente é salvo por pessoas que ficam ligadas a si e que lhe mandam cheques como se a sua vida – que supostamente salvaram – lhes pertencesse.
Estas são as bases de “Choke”, um filme do estreante na realização Clark Gregg – mais conhecido como actor – e adaptado da obra homónima de Chuck Palahniuk, o criador de “Fight Club”, “Surviver” ou “Lullaby”.
Tal como nas obras anteriores, Palahniuk segue os caminhos traçados por outros autores como George Saunders ou Bret Easten Ellis, produzindo visões grotescas e caricaturais de segmentos da sociedade americana que, vazios de sentido, encontram nos gadgets ou nos seus vícios e recalcamentos um escape para se sentirem vivos.
Entre o repugnante, quase nilista, e o hilariante e surreal, Palahniuk vai passeando o seu estilo de escrita atraente, prendendo sempre o leitor capítulo após capítulo e levando-nos a entrar dentro de cada uma das suas bizarras, mas credíveis personagens.
Porém, e vamos com calma, estou ainda e apenas a falar do livro. A adaptação ao cinema não é assim tão cativante.
Um dos maiores segredos da transposição de “Fight Club” ao cinema ter funcionado tão bem, foi o facto de terem sido reunidos três pilares fulcrais. Por um lado tínhamos um óptimo e dinâmico argumento, repleto de detalhes e personagens atractivas. Por outro, foi escolhido um cineasta esteticamente evoluído e que dá um enorme cariz visual aos seus trabalhos. Fincher, com uma enorme experiência em comerciais e videoclips, deu um rosto, uma aparência, um tratamento estético único a uma história já de si forte. Se juntarmos a isto o elenco, que incluia Brad Pitt, Edward Norten e Helen Boham Carter, reparamos que esta obra tinha todos os ingredientes para se tornar num filme inesquecível e num objecto de culto.
Já este “Choke” padece de diversos males logo à partida. Em primeiro lugar, e mesmo sendo um trabalho interessante, “Choke” não é tão fantástico e fulminante (o livro) como “Fight Club”. Depois, Clark Gregg não tem o apurado sentido visual de Fincher e isso corrói grande parte da obra, pois há momentos que mais do que falados poderiam ser apenas representados. Finalmente, e se Sam Rockwell me parece até uma escolha acertada para o papel de Victor, todas as outras opções soam desajustadas –
especialmente Kathryn Alexander.
Como resultado temos apenas um filme que triunfa por aquilo que o livro já era, não trazendo nem melhorando nada de novo, mas que pelo menos não lhe muda o sentido, nem o estraga. É assim nesta indiferença e falta de visão de Gregg que “Choke” se torna num objecto comum, ainda que com diálogos e situações únicas.
O Melhor – O inicio. Os primeiros minutos cativam-nos sobremaneira
O Pior- Ausência total de sentido estético. A escolha de Kathryn Alexander para aquele papel foi errada
| A Base |
| Este é um filme que triunfa por aquilo que o livro já era, não trazendo nem melhorando nada de novo, mas que pelo menos não lhe muda o sentido, nem o estraga. É assim nesta indiferença e falta de visão de Gregg que “Choke” se torna num objecto comum, ainda que com diálogos e situações únicas.…. 5/10 |

