IFF Berlim 2012: «Electrick Children» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

«Electrick Children» é a primeira longa-metragem de Rebecca Thomas, uma mulher nascida em 1984 que cresceu numa família Mormon em Las Vegas. Aos 20 anos de idade ela serviu numa missão no Japão e após 18 meses nesse voluntariado ela abandonou a religião e decidiu tornar-se cineasta. A sua primeira curta-metragem, «Nobody Knows You, Nobody Gives a Damn» teve a sua estreia no Festival de Sundance em 2009 e três anos depois ela surge em Berlim com este «Electrick Children», um filme que certamente é composto por muitos detalhes inspirados na sua própria existência.

Na obra seguimos Rachel (Julia Garner), uma jovem que vive com a sua numerosa familia Mormon algures no Utah. Quando faz 15 anos ela é entrevistada pelo seu pai (Billy Zane), um pastor Mormon, numa cerimónia de afirmação familiar. Tudo é registado num velho leitor/gravador de cassetes, algo que a jovem nunca vira na sua vida. Fascinada com o objecto e desejosa de se ouvir, ela deixa escurecer e viaja até à cave para experimentar o leitor, mas uma cassete azul vai mudar a sua vida para sempre. Essa estranha e não etiquetada cassete azul chama-lhe a atenção e Rachel coloca-a no leitor e ouve a coisa mais bela que alguma vez ouviu: música.

Por mais tom de comédia que o filme possa vos despertar com o que vou contar a seguir, acreditem que estamos perante um drama com elementos coming-of-age. Feito o aviso, aqui vai.

Passado algum tempo, e depois de ouvir a dita música, a jovem é confrontada pela mãe pois andava a esconder os pensos higiénicos debaixo do lençol. Aparentemente ela já não tem o período há meses e acredita mesmo que pode estar grávida. As dúvidas são desfeitas com um teste de gravidez, um milagre para a jovem pois a rapariga nunca teve sexo (ou pelo menos diz que não o fez). O verdadeiro twist aqui é que ela acredita que ficou grávida depois de ouvir a dita musica e crê que o pai da criança é o cantor.

Claro que lendo um enredo destes, parece que estamos a lidar com o caso de uma qualquer leitora que escreveu para a Revista Maria, mas acreditem que Julia Garner consegue ser tão fabulosa na sua ingenuidade que tal como ela ponderarmos estar num filme com mais misticismo do que seria de esperar. 

Dada a sua condição, ela é obrigada a casar com um homem com quem não quer, e acaba por fugir e viajar até ao Nevada onde vao procurar pelo autor da cassete e assumir um casamento com ele. Será aí que ela vai dar de caras um grupo de jovens problemáticos que vão ser tão tocados pela angélica maneira de ser da jovem, que também eles (e especialmente Rory Culkin) vão mudar a sua forma de ser.

Totalmente filmado com cores desaturadas de forma a dar um tom nostálgico e melancólico, e repleto de muita independente atraente para os fãs de música alternativa, esta obra de Rebecca Thomas continuamente narrada através do tal leitor de cassetes é uma delícia de se ver. E mesmo que existam alguns buracos na história e demasiados momentos em que os twists não nos convencem, a força da personagem de Rachel enfeitiça-nos completamente pela sua pureza e jovialidade, arrastando-nos até ao último segundo da fita e obrigando-nos a ansiar por um final feliz.

Por isso mesmo, e apesar dos tais defeitos que já apontei, «Electrick Children» é uma das primeiras boas surpresas de 2012 e um indicador que Garner e Thomas são mesmo nomes a seguir na cena indie norte-americana.
 
 
 Jorge Pereira
 

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