IFF Berlim 2012: «Mercy» por João Moreira

(Fotos: Divulgação)
Hammerfest, Noruega, com cerca de 9.000 habitantes, é uma daquelas localidades que à partida não chamariam ninguém. Está acima do círculo polar ártico, a temperatura média anual é de 2.º e durante o período de 22 de Novembro e 21 de Janeiro o Sol nunca se levanta acima do horizonte, num fenómeno a que se chama de noite polar. No entanto, devido à indústria de gás natural que alberga, Hammerfest continua a chamar estrangeiros pela sua prosperidade económica. É o caso de Niels (Jürgen Vogel) e da sua família, protagonistas de «Gnade» (Mercy).

Antes da sua partida para os confins da Noruega, esta família residia em Kiel, Alemanha, sendo que Niels partia semanas a fio para plataformas petrolíferas onde descansadamente traía a mulher. O seu casamento com Maria (Birgit Minichmayr) está estagnado, senão mesmo morto, e não demora muito até que haja uma nova amante na vida daquele homem. Maria decidiu seguir o marido, levando o filho comum para Hammerfest, mas o casamento parece estar perdido.

Costuma-se dizer que só uma grande desgraça para salvar um amor desgraçado e é isso que acontece nesta história. Durante a noite polar, Maria conduz de volta a casa depois de um turno de 24 horas – é enfermeira – e atropela algo. Assustada, resolve fugir e acaba por partilhar o seu segredo com o marido. Maria e Niels têm agora um segredo conjunto que os vai reunir.
 
 

«Gnade», o título do filme, é a palavra alemã para misericórdia e é esse o tema central do filme. Para além do que se passa entre os pais, também o filho de ambos, Markus, pratica uma acção da qual se arrepende e busca o perdão da sua vítima. Será possível perdoar-se tudo? Será que o ditado “a melhor vingança é viver bem” se aplica em situações tão extremas?

Foram essas as duas grandes perguntas que ficaram a pairar no ar enquanto os créditos finais se desenrolavam e os aplausos iam enchendo a sala. Pegando no microcosmos que é uma família estrangeira numa cidade pequena, o realizador Matthias Glasner conta-nos uma história que de tão universal nos toca a todos. Quem de nós não tem um ou dois segredos que fazia melhor em contar? Qual seria a reacção daqueles a quem deveríamos contá-los? Teriam misericórdia de nós?

Por ser um tema tão universal, a história de «Gnade» não prima pela novidade e não são poucas as variações sobre o mesmo. Felizmente, a forma como o filme é contado, o ritmo a que os eventos se desenrolam e a humanidade com que os personagens são representados, fazem-nos sentir que aquilo se poderia passar connosco e, inevitavelmente, põe-nos a pensar sobre qual seria a reacção que teríamos se fossemos nós a conduzir naquela estrada secundária onde a vida de tanta gente se alterou para sempre.

Isto aliado à paisagem maravilhosa (Glasner optou por tornar Hammerfest bonito quando imagino que facilmente poderia ser mostrado como o oposto) e a uma atmosfera sonora baseada num poderosíssimo coro norueguês fazem de «Gnade» um grande filme e aquele que mais gostei na secção competitiva da Berlinale 2012.
 
 
 João Moreira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(responsável pelo blog subjective.movie.reviews)

 

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