«Tabu» por João Moreira

(Fotos: Divulgação)
 
A noite de 14 de fevereiro de 2012 ficará na memória de Miguel Gomes, realizador de Tabu, como a da estreia com mais pompa e circunstância que algum dos seus filmes já teve. Aliás, a estreia de «Tabu» na Berlinale 2012 deve ter sido a estreia mais pomposa que um filme português jamais teve: passadeira vermelha, emissão em direto na televisão, segurança reforçada e fãs à espera (se bem que os fãs estavam à espera da Meryl Streep para outra sessão, mas isso não interessa nada). É uma pena, portanto, que o filme exibido não estivesse à altura do espetáculo montado para ela.
 
Honestamente já não sei o que dizer mais sobre o protótipo cinema português. Já por várias vezes referi o quanto me custa ver que, filme atrás de filme, a nossa escola de cinema continua a repetir a mesma fórmula, caracterizada pelo formalismo excessivo (a roçar o grotesco), o pedantismo e um desinteresse em cativar o público. Em «Tabu» Miguel Gomes cai nos mesmos erros, logo ele cujo anterior filme teve bastante sucesso precisamente por se afastar desse molde.
 
Partilhando o título com um filme dos anos 30, «Tabu» começa com um prólogo que parece ter sido filmado nessa década. Neste se conta a história de um intrépido explorador que, de coração desfeito, se deixa morrer em plena África e a, partir dessa lenda, partimos para a história propriamente dita.
 
Dividido em duas partes (Paraíso Perdido e Paraíso, tal como o seu homónimo) «Tabu» começa por nos apresentar Aurora (Laura Soveral/Ana Moreira) enquanto idosa já meio senil, tal como a sua empregada Santa (Isabel Cardoso, o melhor que o filme tem para oferecer) e a sua vizinha Pilar (Teresa Madruga). No leito de morte, Aurora pede a Pilar para contactar um homem, Gian Luca Ventura (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta). Ventura e Aurora conhecem-se dos tempos em que ambos tinham fazendas na África colonial portuguesa e por lá tiveram uma relação intensa que entretanto se diluiu até à inexistência. Ventura, já velho e solitário, acaba por nos contar o porquê recordando os dias tórridos que viveu com aquela mulher.
 
 
 
Começa aqui os dos meus grandes pontos de discórdia com este filme. A segunda parte do filme é integralmente narrada por Ventura, em prejuízo dos diálogos entre os personagens. Não, não é um filme mudo porque se ouvem efeitos sonoros – tanto o som de fundo como a respiração dosatores marcam presença e eles conversam entre si, nós é que não lhes ouvimos a voz.
 
Juntem a isso uma rigidez formal excessiva, que transforma as interpretações em marionetas (e que já vinha da primeira metade do filme) e uma fotografia a preto e branco, que não me pareceu ter grande qualidade e ainda menos interesse narrativo, e começam a perceber o que quero dizer: «Tabu» é um exercício de estilo feito por um autor para si mesmo e que – com muita pena minha – acaba por ser um desperdício de tempo, dinheiro e talento.
 
Bem sei que não represento a crítica cinematográfica mais típica e não é por acaso que resumo o meu blog como “crítica de cinema para quem não paciência para críticos de cinema”. Admito até que talvez seja eu a estar errado, já que aparentemente a receção a este filme noutras publicações tem sido positiva, mas enquanto espectador de cinema não posso recomendar este filme a ninguém.
 
Durante a primeira parte do filme, Aurora diz algo do género: “Por vezes dão-nos presentes de que não gostamos. Não é por mal, apenas não nos conhecem o gosto“. «Tabu» é o mais recente presente de Miguel Gomes aos espectadores. É provável que a maioria não goste mas não é por mal, apenas não lhes conhece o gosto.

 
 
 João Moreira 
 
(responsável pelo blog subjective.movie.reviews)

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