IFF Berlim 2012: «The Woman in the Septic Tank» por João Moreira

(Fotos: Divulgação)
O segundo filme filipino que vi em dois dias consecutivos tem mais em comum com o primeiro do que o país de origem. Dito resumidamente, «Ang Babae sa Septic Tank» goza com o grupo de filmes a que «Captive» pertence.
Enquanto que a obra de Brillante Mendoza faz questão de mostrar a miséria e a violência na vida quotidiana num país do Sudeste Asiático, o filme de Marlon Rivera dá a volta a esse cliché que Mendoza e  tantos outros realizadores independentes daquela zona do globo vão alimentando e conta-nos a história da produção de “Walang-Wala”, um filme fictício realizado pelo jovem Rainier (Kean Cipriano) e produzido pelo seu amigo Bingbong (JM de Guzman).
Tal como no caso dos filmes que tenta satirizar, Walang-Wala é um filme que segue a fórmula de sucesso da nova onda de filmes asiáticos: mostra pobreza e violência; é duro, sujo, cheio de takes longos sem diálogos e – o mais importante de tudo – tem um tema que garante polémica. “É disso que os festivais gostam”, diz Bingbong, “o filme vai ser um sucesso!“.
À medida que a história vai avançando vamos vendo cenas em que os dois cineastas e a sua production assistant (que, enquanto caricatura perfeita que é, está permanentemente calada e é diligente em buscar cafés) tentam tornar “Walang-Wala” um isco perfeito para o circuito de festivais e a cada nova sugestão temos intercalado o mesmo conjunto de três cenas, com as devidas alterações: a vítima deve ser rapaz ou rapariga? o abusador deve ser caucasiano ou japonês? a mãe da criança deve ser mais ou menos “mamalhuda”? que tipo de filme deve ser?.
Não pensem que com tanta repetição das mesmas cenas o filme se torna chato. A única versão aborrecida é aquela que mais se aproxima dos filmes parodiados. Essa, devo avisar, é mesmo lenta mas é logo a primeira, pelo que se podem preparar sabendo que depois da tempestade vem a bonança. 
Todo o restante filme é delirantemente divertido e acerta em cheio nos clichés que quer desvendar. Destaco especialmente a cena do casting de Eugene Domingo, uma (verdadeira) estrela de telenovelas nas Filipinas que apesar de ter apenas três tipos de representação (“elevator”, “police alert” e “no-acting acting”) quer entrar no filme porque “vocês os indie é que estão a dar“.
Marlon Rivera tem 46 anos, este é o seu primeiro filme e filmou-o num período de 10 dias com um orçamento de € 60.000. «Ang Babae sa Septic Tank» tornou-se o maior êxito de bilheteira de sempre no seu país e – ironicamente – puxou o seu realizador para o mesmo circuito de festivais que os seus protagonistas tanto almejam. É um sucesso inteiramente merecido porque este não é apenas o meu filme preferido da Berlinale (até agora) como a maior e melhor surpresa cinematográfica que tive em 2012.
 
 João Moreira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(responsável pelo blog subjective.movie.reviews)
   

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