Quando dei a minha primeira olhadela pelo programa da Berlinale deste ano, um dos principais critérios que tive em conta foi o procurar conhecer o cinema de alguns países mais alternativos. Nesse sentido, «Highway» foi uma escolha fácil: vou ver o meu o meu primeiro filme do Nepal, pensei eu, e logo com uma história me pareceu extremamente apelativa.
«Highway» é uma espécie de road movie que tem origem na necessidade do seu protagonista, Manoj, viajar de Darjeeling a Kathmandu no período máximo de 36 horas. É essa a duração máxima dos efeitos de uma poção que tomou para aumentar a sua fertilidade e Manoj e a mulher tentam ter filhos há 4 anos. Manoj e os seus companheiros de autocarro têm pressa de chegar a Kathmandu e terão de improvisar para ultrapassar as sucessivas barreiras à sua progressão.
É que em princípio o autocarro em que viajam chegaria a tempo, pois as duas cidades distam cerca de 650km uma da outra e segundo o Google Maps, a viagem dura 12 horas e 53 minutos. O problema é que no Nepal as viagens por estrada não são assim tão simples e há que contar com os sucessivos bandh que bloqueiam as estradas daquele país e não deixam o autocarro chegue calmamente ao seu destino. “E o que são bandh?”, perguntam vocês. São uma forma de manifestação bastante típica daquela região em que os organizadores cortam as estradas durante dias a fio para que o trânsito deixe de fluir.
Quando li o sumário imaginei «Highway» como uma corrida contra o tempo sempre com um ritmo acelerado numa mistura de comédia e ação, mas estava enganado. Esta é a primeira longa metragem do seu realizador (Deepak Rauniyar) e isso nota-se sobretudo na tentativa de contar tudo e, consequentemente, acabar por não contar nada. Numa tentativa de aprofundar as razões que levam aquelas pessoas a fazer a viagem, o filme perde-se e acaba por secundarizar aquilo que deveria ser o seu centro: o autocarro e seus ocupantes.
Talvez em mãos mais experientes esta tentativa de malabarismo tivesse tido mais sucesso, mas infelizmente Deepak Rauniyar não teve mãos para o que quis contar. A edição do filme aproxima-se perigosamente do amadorismo e a dada altura os espectadores estão tão perdidos que não conseguem desfazer o novelo de histórias. Existe ainda assim uma redenção: se enquanto história de ficção, «Highway» é fraco, enquanto espelho da vida no Nepal atual tem algum interesse.
Uma nota final para a forma como o orçamento para o filme foi obtido. Através de doações individuais, numa plataforma online, o realizador conseguiu juntar os 33.647 dólares necessários e, só depois de tudo já estar filmado, conseguiu chamar a atenção do ator Danny Glover, que acabou por se associar ao projeto enquanto coprodutor. As novas tecnologias abriram a porta a novas formas de financiamento e este é um bom exemplo das novas portas que se abrem para o futuro.
| João Moreira |
(responsável pelo blog subjective.movie.reviews)

