IFF Berlim 2012:«Kid-Thing» por João Moreira

(Fotos: Divulgação)

Annie (Sydney Aguirre) tem 10 anos e vive com o seu pai numa qualquer terriola do Texas. O homem que é seu pai, só o é na teoria, porque no que diz respeito a tomar conta da filha, preocupar-se com ela, saber por onde anda ou transmitir-lhe alguns valores, aí está quieto. Marvin (Nathan Zellner, irmão do realizador) é uma criança grande que falha completamente nas suas responsabilidades parentais.
 
Já Annie é uma criança-criança, mas por vezes faz asneiras como gente grande: diverte-se a fazer chamadas anónimas (como muitos de nós fizemos quando éramos mais novos), rouba doces do supermercado e até dispara armas de paintball contra o cadáver de uma vaca. Vejam-na como um Calvin, mas sem o Hobbes, no corpo de uma maria-rapaz. Annie tem uma vida complicada e é (ela mesma) complicada.

Um dia em que não teve escola, resolve ir passar o tempo para um bosque. Será aí que começa a ouvir gritos de socorro. É na investigação que ela descobre uma espécie de poço onde aparentemente terá caído Esther, uma mulher mais velha que agora precisa da ajuda para sair. Annie, a criança que diz que não tem medo de nada, foge a correr mas volta no dia seguinte e continua a voltar, com comida, bebida e pedidos de atenção. Nunca, porém, ela regressa com uma escada ou um adulto que possam realmente ajudar .
 
Porque é que Annie mantém a relação com esta mulher que não vê? Porque é que não a ajuda a sair dali? Será que Esther existe mesmo ou é apenas uma criação da mente daquela criança, uma forma de enfrentar o medo do desconhecido? A resposta é deixada em aberto mas o filme tende a seguir numa direção que não me agradou particularmente e que o afastou de maior grandeza. Tomem particular atenção à montagem sonora para perceber o que estou a dizer. 
 
Talvez até seja embirração pessoal da minha parte, mas acho que os filmes sobre crianças (que não são a mesma coisa que filmes para crianças – Kid-Thing é um filme para adultos!) devem tentar ser o mais diretos possível, sem forçar obscurantismos que não existiriam na mente dos seus protagonistas. As crianças veem magia e aventura em todo o lado, mas não duplos sentidos para as suas ações. A história de Annie é por si só relevante e a tentativa de forçar simbolismos onde não deviam existir faz com que «Kid-Thing» nos transmita uma mensagem, mas muito menos interessante do que podia conseguir.
 
Foi sobretudo por isso que fiquei desiludido com «Kid-Thing». É um filme tecnicamente bastante competente (com especial louvor para o trabalho a nível sonoro e para a interpretação da protagonista) e que não é propriamente mau, mas a razão que me impeliu a ir vê-lo foi o ter-me lembrado de «Curling», de Denis Côté, e querer ver um filme a explorar melhor um tema que me interessa bastante. Infelizmente terei de continuar na minha busca de encontrar a forma perfeita de mostrar a solidão infantil.
 
 
 
 João Moreira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(responsável pelo blog subjective.movie.reviews)
 

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