IFF Berlim 2012: «Nuclear Nation» por João Moreira

(Fotos: Divulgação)
Se filmes e jogos apocalípticos como «The Road» ou a série «Fallout» nos tentam mostrar o mais realisticamente possível como seria a vida humana após um qualquer apocalipse nuclear, «Nuclear Nation» – do cineasta japonês Atsushi Funashi – conta nos a história real de um grupo de pessoas sobre as quais esse apocalipse caiu no dia 12 de março de 2011.

As pessoas em causa são alguns dos ex-residentes da cidade de Futaba, na costa leste do Japão. Na véspera do malfadado dia 12 de março de 2011 a sua cidade, que em condições normais estaria condenada ao esquecimento, tornou-se notícia por uma das piores razões possíveis: foi das mais afetadas pelo gigantesco tsunami que nesse dia levou consigo milhares de casas e de vidas. Infelizmente para Futaba, o pior ainda estava para vir.

Nesse dia 11 de março, enquanto os sobreviventes tentavam dormir no que restava da sua cidade, não imaginariam que talvez nunca mais lá pudessem passar a noite. No dia seguinte, o reator número 1 da central atómica de Fukushima Daiichi (este nome já é mais conhecido, certo?) não resistiu ao sobreaquecimento consequência do tsunami e explodiu, lançando para o ar uma nuvem radioativa que punha em perigo tudo e todos. Começava aqui o pior desastre nuclear desde Chernobyl.

Tendo sobrevivido ao tsunami, os habitantes remanescentes de Futaba foram evacuados para diversas partes do Japão, tendo muitos deles ido parar a uma escola perto de Tóquio. Foi lá que o realizador os conheceu e é por lá que passamos grande parte das mais de duas horas do filme.

É também nessa escola, a centenas de quilómetros de Futaba, que está instalada a Câmara Municipal da cidade e onde trabalha o seu presidente, Katsutaka Idogawa, um D. Quixote moderno e real que tem a árdua tarefa de tentar reconstruir uma cidade que simplesmente desapareceu do mapa. Idogawa é o mais próximo que este filme tem de umA personagem principal e, posso dizê-lo, uma pessoa que fiquei a admirar pelas suas investidas contra os “moinhos de vento” atómicos.

No Q&A que se seguiu à exibição do filme, o realizador (cujo pai sofreu outro apocalipse nuclear, já que vivia em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945) admitiu duas razões para a existência deste filme: por um lado “denunciar a negligência criminosa do Governo Japonês e da TEPCO” e por outro mostrar um rosto àquela tragédia, depois dos repórteres das televisões terem ido embora.

Só posso dizer que pela minha parte o objetivo foi cumprido. Apesar de sofrer do grande problema do cinema documental asiático – a falta de narração – «Nuclear Nation» é um filme importante, pela mensagem que transmite, mesmo que essa mensagem seja – analisada objetivamente – bastante deprimente, basta pensar que o acidente de Chernobyl aconteceu em 1986 e Prypiat, a Futaba de então, ainda hoje é uma cidade fantasma. O governo japonês aprovou recentemente uma lei que determina que os terrenos onde Futaba se situava serão utilizados para armazenamento de lixo tóxico de outras zonas do país e não é por acaso que o liceu alberga cada vez menos refugiados (cerca de 500, dos 1400 iniciais). Futaba acabou e Idogawa já está a lutar contra um novo moinho de vento. Descobrir onde fundar a sua nova cidade. 

Será uma mudança temporária, diz ele, até voltarem ao sítio de onde saíram naquele malfadado dia 12 de março de 2011.
 
 
 
 João Moreira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(responsável pelo blog subjective.movie.reviews) 

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