O espectador comum que veja uns 30 filmes anualmente está mais que habituado a assistir e a banalizar dezenas de mortes no grande ecrã. Em «Living», segunda longa-metragem do russo Vasily Sigarev, acompanhamos três histórias e um grupo de personagens que, de uma forma ou de outra, terá de lidar com a morte, voltando esta a ter um significado pesado e repleto de significado num filme tão russo como universal.
De um lado temos um jovem casal que, logo após a sua união matrimonial, é confrontado com um ato de violência tremendo num comboio. Depois há ainda a história de uma mulher de meia idade que assiste às consequências que o seu alcoolismo provoca nas suas filhas (gémeas). Finalmente, temos ainda um rapaz cuja mãe o impede de ver/estar com o pai.
No fundo todas estas histórias, apesar de podermos dizer que têm traços contemporâneos, poderiam passar-se há alguns séculos atrás. Já o próprio conceito de morte e como as pessoas lidam com isso, especialmente fora da sua esfera familiar, é consideravelmente diferente do de outrora, sendo penoso assistir que o cinema russo atual tem insistido na total frieza e afastamento das pessoas em relação ao drama dos outros. Veja-se «Twilight Portrait», vencedor do Lisbon & Estoril Film Festival e veja-se este «Living». Certamente encontramos semelhanças na abordagem à indiferença geral e à banalização de diversas tragédias.
Com belíssimas interpretações emocionais das personagens, uma cinematografia brilhante e um ambiente extremamente pesado durante as suas duas horas, «Living» (numa aparente contradição do seu título) foi um dos melhores filmes a passar no Festival de Roterdão e é uma obra que nos transporta para verdadeiras emoções de angustia sem necessitar usar a manipulação para isso. A não perder…
| Jorge Pereira |

