Depois de um documentário em que seguia um ex-condenado, o australiano Amiel Courtin-Wilson transita agora para a ficção criando este «Hail», uma espécie de docu-drama autobiográfico e que coloca Daniel P. Jones (também ele um ex-condenado) no seu próprio papel num filme sobre reintegração e a constante fuga aos demónios interiores que o acompanham desde criança.
Recorrendo a verdadeiros amigos de Jones, e a mais de 500 páginas de memórias do “ator”, o filme envolve-se assim em torno da personagem principal e na sua relação amorosa. À forma da narrativa convencional são adicionados diversos elementos visuais que demonstram o confuso estado mental da personagem, havendo claras variações e dúvidas entre o que é real e o imaginário, o que é resultado dos psicotrópicos, do álcool e dos fantasmas do passado martirizado de Daniel.
A esse arrojo e desorientação visual repleta de close-ups, soma-se ainda o trabalho de som e da banda-sonora, onde imperam guitarras distorcidas que ecoam de forma sistémica e acentuam ainda mais o caos mental (com reflexos físicos e na perceção das coisas) que Daniel assume.
Como tal, e como trabalho experimental, este «Hail» pode ser um verdadeiro banquete para Festivais de Cinema, mas fora deste ambiente é de antever que o filme sobreviva apenas em cinemas arthouse e com distribuição muito limitada. Ainda assim é um filme interessante de se ver.
| Jorge Pereira |

