Os filmes com diversas personagens que invariavelmente se cruzam pelos destinos da vida têm tido diversas interpretações ao longo dos tempos. Basta lembrar os trabalhos de Altman, como «Shortcuts – Os Americanos», ou Paul Thomas Anderson com o seu «Magnolia», sucessos incontestáveis da crítica. Por outro lado, e apesar de ter ganho o Óscar, o filme «Crash/Colisão» tornou-se um filme fácil de odiar, e desde então este formato entrou em profundo desuso para a critica, que o martiriza filme após filme. O próprio Inarruti tem sentido isso na pele, sempre entre o ódio assombroso ao seu estilo, e a mais louca paixão.
Em oposição, e em especial nas comédias, o publico em geral continua a gostar deste formato, especialmente em comédias e dramas, mas também utilizado em thrillers, como este «Room 304», uma obra visualmente imponente que segue o quotidiano de uma série de personagens hospedadas num hotel.
A cineasta Birgitte Stærmose confidencio-nos que sempre lhe fascinou o que há para lá da porta de um quarto de hotel, nas histórias e dramas escondidos, e neste filme de suspense ela explora muito esse conceito, tendo como ponto de partida um tiro que se ouve numa instalação hoteleira e que de uma, ou outra maneira, vai fazer com que todas estas pessoas interajam.
Nessas personagens, e num elenco tremendamente multiétnico, não estivéssemos nós num hotel internacional, existem os mais variados dramas, sejam estes relacionados com questões amorosas, infidelidades, imigração ou até mesmo crimes de guerra dos balcãs prestes a serem vingados por martirizados do conflito. Todos neste conto – um pouco miserabilista – procuram escapar a problemas usando cada um o seu jeito para o fazer.
A partir daqui é construída uma narrativa elíptica, que vai à frente e atrás, tentando o espectador acertar com a ordem cronológica dos eventos, mas tudo de forma bastante simplificada, ou mesmo comercial, pois a obra procura agradar a gregos e troianos.
E apesar de mais uma vez um filme do género ter sido dizimado pela crítica, talvez por esse tom comercial e abrangente que detém, posso dizer que «Room 304» é um trabalho que me prendeu do inicio ao fim, mesmo no que toca a alguns estereótipos e clichés humanos das suas personagens, não fossem eles vítimas de relações e sentimentos comuns a todas as pessoas.
Mas o que me agradou, da mesma maneira que o “tonto” mas eficaz «Identity» conseguiu, foi Stærmose criar um conjunto de situações que nos fazem querer ser voyeurs, entrar pelos quartos do hotel e descobrir mais sobre o caso da arma disparada. Como foi a arma para o hotel? Quem a disparou? O que levou alguém a fazer isso? Quem é a vítima?
Ao conseguir manter o desejo do espectador em querer saber a resposta a estas questões, a cineasta dinamarquesa alcança o seu objetivo e coloca-nos sobre um entretenimento escapista com pouca presunção ou ambição. Para o bem e para o mal…
| Jorge Pereira |

