A preto e branco e num ecrã bem estendido. É assim que Eduardo Nunes pinta o seu «Sudoeste», um ensaio cinematográfico em competição no Festival de Roterdão e que pelas suas influências estilísticas e formato narrativo já deixou a sua marca.
Na obra seguimos, de forma mais abstrata do que a sinopse do filme informa, Clarice, uma mulher que, num único dia (para todas as pessoas à sua volta), vive a sua vida por completo. Em seu redor estão pessoas com que interage, sejam familiares ou muitas outras que se cruzam num destino que sabemos amaldiçoado e carregado pela tragédia que foi o seu nascimento.
Tudo isto é regado com fortes componentes visuais, sonoros e diversos detalhes e simbolismos que elevam o filme para um verdadeira mina de ouro para cinemas arthouse. Desde a forma como o tempo passa, aos parcos diálogos, passando pelos quadros vivos de vidas quotidianas aparentemente imóveis, tudo transcende a mera experiência dos 128 minutos que o filme tem, notando-se reminiscências/influências de cineastas como Tarkovsky, Béla Tarr ou Ingmar Bergman.
Depois há ainda personagens bizarras, como a Bruxa, que tão pouco tempo está em cena mas que é portadora da chave para o mistério e para o quebra-cabeças que esta história se revela.
Uma nota importante para o trabalho sonoro, carregado de pequenos deleites que aprimoram a profunda experiência sensorial que esta película representa, ainda que algumas vezes distraiam o espectador profundamente absorvido por tudo o que Nunes coloca em jogo. Assim, este não é um filme para todo o público, mas certamente espera-se uma longa carreira em festivais de cinema.
Finalmente, destaque para todo o elenco, que conjuntamente com uma narrativa densa e um estilo visual e sonoro intenso contribuem para um filme profundamente naturalista, mas com mais dimensões do que aquelas que uns óculos 3D poderiam alguma vez fornecer a um espectador…
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Jorge Pereira Crédito da Fotografia: © Emmanuelle Bernard |

