Sundance 2012: «Can» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Nesta tragédia turca com enredo telenovelesco seguimos Ayşe e Cemal, um casal que desespera para conseguir ter um filho. Após várias tentativas falhadas, o casal decide recorrer a um médico que os informa que o homem é estéril e que nunca poderá ter filhos. A masculinidade de Cernal é fortemente afetada, mas este recusa-se em assumir a sua incapacidade e decide adotar uma criança, nem que seja de forma ilegal. Porém, o adotar é apenas um meio para conseguir ter um filho, pois a mensagem importante para passar é que ele «é um homem de verdade», capaz de ter filhos. Já Ayse parece estar mais interessada na experiência da gravidez e em momento algum aceita com bom animo cuidar de uma criança que não seja sua, o que vai fazer com que o casal entre em rota de colisão e se separe.
 
A partir daqui o filme entra ainda mais numa espiral de enredo de novela mexicana, especialmente quando o duo se separa e Cernal encontra numa família rica a sua nova companheira. Mas que faz então uma história assim em Sundance? O segredo está na forma não linear como a história nos é contada por Raşit Çelikezer, um cineasta que conseguiu dar a volta a uma história «da carochinha» de maneira a nos manter tensos até ao final. A abordagem como ele trata as suas personagens, capazes dos maiores silêncios carregados de expressões, distancia este produto dos demais comerciais e dá ao filme a tal chama de cinema do mundo que o Festival de Sundance tanto gosta, até porque de certa maneira mostra alguns dos estigmas da sociedade turca.
 
Uma nota final para as atuações no filme, todas seguras, destacando-se com maior ênfase a personagem interpretada por Selen Uçer, bastante exigente na expressão corporal e facial.
 
 
 Jorge Pereira
 

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