Sundance 2012: «A Cadeira do Pai» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
A história do pai que lida mas não conhece bem os filhos é uma temática constante no cinema. Basta apenas lembrar «Os Descendentes», atualmente nas salas, para entendermos a dinâmica destes projetos. Em «A Cadeira do Pai», essa temática regressa em força, seguindo o espectador um casal separado que, de um dia para o outro, vê o seu filho desaparecer.
 
Curiosamente, ou não, será essa busca pelo adolescente que os vai reaproximar, ainda que esta seja uma obra onde a vítima de um pai ausente sente dificuldades em agir como pai e só quando um ato extremo ocorre é que ele «acorda» para a situação.
 
Escrito e filmado num estilo road movie pelo estreante Luciano Moura, «A Cadeira do pai» é um filme contagiante em descobertas para todas as suas personagens. 
 
Cabe a Theo Gadelha (interpretado por Wagner Moura, de «Tropa de Elite»), um médico, a tarefa de seguir as pistas que o filho foi deixando pelo caminho de maneira a encontrá-lo. Nessa viagem, Gadelha vai cruzar-se com um grande número de personagens e locais por onde o filho passou. O mais engraçado é que o adolescente fugiu num cavalo preto e um pouco por todo o lado toda a gente o viu. Desde zonas com barracas, até barcos (que funcionam também como casa), passando por festivais de música, Gadelha passa por todo o lado atrás do filho. Pelo caminho, ele até ajuda num parto, é atropelado, cai à água e até assalta um cardíaco. Houve momentos em que esta tragicomédia relembrou-me um filme de fantasia com Gary Oldman chamado «Interstate 60», tais os mundos estranhos que Gadelha descobre na sua jornada em busca do filho. Mas o melhor é que não há nada de fantasista aqui, mas apenas um universo que Gadelha parece desconhecer ou não se recordar. Veja-se quando ele dá boleia a uns jovens que vão para o festival de música, ou quando ele é conduzido por uma jovem nesse evento atrás de mais uma pista. Gadelha parece estar noutro mundo, como se tivesse parado no tempo, e foi isso mesmo que aconteceu (aqui entra simbolicamente uma foto muito antiga do filho que ele guarda).
 
Na realidade, este homem não acompanhou o crescimento do filho e agora varia entre o desespero (para o encontra) e o orgulho (pela forma como vê que o filho ultrapassa as contrariedades).
 
 
 
Como tal, e apesar de este ser um filme bastante óbvio, com diversos simbolismos nas intenções e até comercial na forma, isso não lhe tira valor, mas apenas o torna ainda mais apetecível para mais espectadores.
 
Uma nota final para o elenco onde se destaca Wagner Moura, mas também Mariana Lima, que o acompanha nesta jornada, descobrindo ela também muito sobre o seu filho enquanto vasculha as coisas no quarto dele. Claro está que não podemos desprezar Brás Antunes (o adolescente) e o veterano e lendário Lima Duarte, que aqui desempenha o papel do surdíssimo pai de Theo, pronto para ajudar num final emocionante.
 
A não perder…
 
 
Jorge Pereira
 

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