Sundance 2012: «Madrid, 1987» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Quem não souber que «Madrid, 1987» foi escrito propositadamente para cinema, vai imediatamente pensar que se trata de uma adaptação de uma peça teatral. Na verdade, o filme é muito isso, já que as duas únicas personagens relevantes da história passam a maior parte do tempos enclausurados e nus numa casa de banho.
José Sacristan interpreta o papel de Miguel, um académico que é aclamado como escritor, quer seja pelas crónicas jornalísticas, quer seja pelas suas novelas. Os seus 75 anos fazem dele um velho sabichão, repleto de frases feitas que atraem a atenção de qualquer pessoa, incluindo a do espectador. Instado a ajudar a estudante de jornalismo Angela (Maria Valverde), o escritor é todo charme e convence a jovem a ir para um local mais recatado, em forma de apartamento de um amigo de Miguel. Quando chegam lá avançam as incursões eróticas de Miguel sobre Angela, uma rapariga que apesar de tentar escapar aos seus os intentos, facilmente se fascina com a situação e o palavreado do galante e do seu «urso» adormecido. Após algumas pinturas corporais (como forma encontrada por Miguel para conquistar eroticamente a jovem), ambos vão tomar um banho. A porta da casa de banho fecha-se e eles ficam lá, isoladas do mundo. 
Com um espaço tão minimalista, só havia uma saída para o filme, o de se centrar apenas nos diálogos entre os dois. E não tenham dúvidas que estes estão repletos de interesse, ainda que de forma insuficiente para sustentar um filme que ronda a hora e quarenta de duração.
O espectador fica assim entretido e imerso da lengalenga, ainda que seja de Miguel que surjam 90% dos diálogos. Mas como ele diz, e prova durante toda a obra, «até quando fala de outras pessoas, ele fala dele». Há contudo um lado misterioso em Angela, uma rapariga demasiado jovem para Miguel, como diz o melhor amigo deste quando entra em cena. Talvez seja esse tom misterioso, ingénuo mas longe da inocência que nos cativa entre as mil e uma palavras e frases feitas da personagem de Miguel. E é ela que nos faz querer saber o desenlace de tudo isto.
Com boas prestações dos atores e algum interesse no tom minimalista e claustrofóbico, «Madrid 1987» é um filme curioso de ver, mas fundamentalmente por aqueles habituados a uma linguagem mais teatral. E não haja dúvidas, um dia esta fita irá subir a um palco.
 
http://www.youtube.com/watch?v=MWMDeUuZzjs  
 
 Jorge Pereira

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