«Trabalhar Cansa» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
«Trabalhar Cansa», mas encontrar trabalho ainda mais. Isso é o que Otávio (Marat Descartes) vai descobrir nesta obra que marca a estreia nas longas-metragens de Juliana Rojas e Marco Dutra.
Presente na última edição do Festival de Cannes, o filme acompanha um casal, Helena (Helena Albergaria) e Octávio, a lidar com um mundo novo. A primeira é uma dona de casa que decide investir algum dinheiro num pequeno supermercado. Já Octávio é um homem deprimido que acabou de perder o seu emprego de 10 anos. Há medida que cada um deles embarca na sua nova situação, vamos assistindo à evolução e transformação das suas personagens. A mulher passa a vida a trabalhar no supermercado ficando mesmo obcecada quando começam a acontecer coisas estranhas, como encontrar novelos de cabelo nos esgotos do local ou instrumentos bizarros que mais parecem saídos de um filme de tortura (para não falar dos cães a ladrar). A evolução da sua aparência, caracterização e rosto espelham bem, ao longo do filme, que o trabalho realmente cansa…
Já o homem entra numa espiral verdadeiramente depressiva tornando o seu desemprego num caso crónico e humilhante (afinal ele é um «bosta», ou pelo menos sente-se assim).
Curiosamente, as criticas que li ao filme de brasileiros enraízam muito a análise da obra a uma classe média de São Paulo. O que posso dizer, como português, é que consigo identificar nesta história um verdadeiro conto universal e muito além da sociedade brasileira.
Basta olhar para Octavio e rever a personagem interpretada por Ben Affleck no recente «Homens de Negócios». Basta observar Helena e ver nela as obsessões e vícios modernos dos patrões por conta própria – nesta sociedade ultra moderna (onde praticamente um canibal que come de faca e garfo é considerado evolução). 
Todos estes temas são universais e estão na ordem do dia, especialmente nesta Europa em crise onde o desemprego cresce a olhos vistos. É por isso muito fácil entrar na alma destas personagens e nos seus dramas, que ainda por cima estão rodeadas de outras que sofrem um pouco dos mesmos males – como o drama do mercado paralelo precário (na figura de Paula, a empregada doméstica) ou a altivez da mãe de Helena (uma forma caricatural de uma classe mais abastada ou pelo menos mais habituada a outras mordomias e códigos).
Depois vem então a surpresa sobrenatural do filme e um elemento estranho ao género que (pensávamos) que estávamos a ver. Este absurdo, como diria um conhecido filósofo alemão, surge então em cena e adensa ainda mais as vidas sistémicas destes «cansados», quer seja pelo trabalho, quer pela falta dele. Nesta fase, e devido ao surgimento deste tom a puxar para o suspense e terror, torna-se muito mais fácil encontrar defeitos e criticar este filme, especialmente porque a tal imposição deste sub-enredo parece gratuita e despropositada. Porém, esta anomalia na história eleva (ainda mais) o cansaço mental das personagens, que no caso de Helena roça agora o desespero. Convenhamos, mesmo que consigamos fazer tudo como deve ser, há sempre algo externo contra o qual não podemos fazer nada (e até pode nem ter explicação). Assim, este filme torna-se um pesadelo para os cépticos e para os pragmáticos (quee tal como o balão na entrevista de emprego de Octavio, vão explodir de raiva contra o filme).  
Por todas estas razões, e por ser muito mais que o que aparenta, pode-se dizer que Juliana Rojas e Marco Dutra têm uma estreia auspiciosa com esta longa-metragem, quanto mais não seja pela ambição de ser muito mais do que  alguma vez parecia ser.
 
http://www.youtube.com/watch?v=KGOdjzYYJsA 
O Melhor: Drama contemporâneo entre a depressão de não ter emprego e a obsessão e totalitarismo como consequência do trabalho. Depois ainda há o «absurdo» para mexer com o sistema e mostrar que há coisas externas que não conseguimos travar.
O Pior: Jogar com pontas não explicadas é um risco que vai fazer muita gente odiar o filme
 
{xtypo_rounded2} Trabalhar Cansa
Ano: 2011
Realizador: Juliana Rojas e Marco Dutra
Festivais por onde Passou: Cannes 2011, Festival de Cinema Luso-Brasileiro em Santa Maria da Feira{/xtypo_rounded2} 
 
 
 Jorge Pereira
 

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