Fantasporto 2012: «Un Cuento Chino» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)
O cinema argentino é a prova que a cultura pode ser completamente independente do estatuto económico de um país, sendo impressionante o número de parcerias com Espanha em termos de produção, se compararadas com as existentes entre Portugal e o Brasil.
 
Filmes como «O Segredo de Seus Olhos» mostram de forma muito clara a capacidade do cinema argentino em produzir obras comerciais que atingem os mais diversos públicos, inclusive os mais dedicados espectadores do cinema de autor. E nessa ascensão e poder do cinema argentino, tem havido um nome que acompanha quase sempre os sucessos da cinematografia local. Falo de Ricardo Darín («O Filho da Noiva», «9 Rainhas»), actor que demonstra – mais uma vez – em «Un Cuento Chino» a forma multifacetada e extraordinária como cria as suas personagens: sejam eles um policia reformado em busca da verdade de um caso com 25 anos (O Segredo dos Teus Olhos), o de um agente de seguros com pouco escrúpulos (Carancho) ou o de o dono de uma loja de ferragens com curiosidade por notícias bizarras.
 
E por falar em notícias bizarras, mas reais, eis que conhecemos a de um grupo de ladrões que rouba umas vacas. Com camponeses armados a persegui-los, o avião onde escapavam é atingido, sendo imperioso soltar as vacas e deixa-las cair em pleno ar. Destino ou não (já em «Signs» se focava isso), uma das vacas acaba por cair em cima de um barco onde um jovem chinês se preparava para pedir a noiva em casamento. A vaca destrói o barco e mata a mulher, ficando o jovem chinês completamente arrasado. Esta queda de uma vaca dos céus é baseada num caso real ocorrido em alto mar e que vitimou diversos tripulantes de um barco pesqueiro japonês e por mais bizarra que seja, ela aconteceu mesmo (que saudades de «Magnólia»).
 
Ela é também o ponto de partida de «Un Cuento Chino» (expressão usada na Argentina para definir uma história surreal e pouco credível), um curioso filme que mais uma vez trás Ricardo Darín para a ribalta.
 
O mesmo chinês (Jun,) cuja noiva morre, decide viajar para a Argentina, local onde um Tio lhe poderá dar acolhimento. O problema é que o tio já não mora na morada que ele tinha, ficando o homem entregue a si próprio num país que não conhece. Para piorar, ele não fala uma única palavra e será  Roberto (Darín), um homem carrancudo e de «poucos amigos»  a dar-lhe guarida, pelo menos até que ele encontre o parente. 
 
{xtypo_quote_left} um filme que viaja entre o cómico e o dramático, mas que sempre se mantém profundamente humanista.{/xtypo_quote_left}Roberto, que trabalha numa loja de ferragens, é um homem martirizado e fustigado pela vida e com muitos segredos e histórias do passado por revelar. Podia-se dizer que era um cínico, mas é tão frontal com toda a gente que o máximo que podemos dizer é que é extremamente arrogante  e rígido. É do tipo de homens que conta os parafusos de uma caixa, notando que as empresas metem sempre menos do que o que dizem.
 
 Na construção desta , Darín dá um tom tremendamente cómico a Roberto, sendo daqueles arquétipos do cinema que nos faz rir só pelas expressões ou pela total  ausência destas.
 
É na relação entre Roberto e Jun que o filme se centra, sendo particularmente curiosa a evolução de cada uma das personagens. Realce assim para o desenvolvimento da história e para pequenos detalhes que transformam este filme em mais uma pérola da cinematografia das Pampas, num filme que viaja entre o cómico e o dramático, mas que sempre se mantém profundamente humanista.
 
A não perder…

O Melhor: Ricardo Darín. Não há actor que use tão bem as frases “la puta que lo parió”, “la reputisima madre”, “boludo” e «pelotudo» como ele
 
O Pior: Nada a apontar
 
 
 Jorge Pereira
 

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