Era uma vez um rapaz que não queria crescer. Com a ajuda de um dom e dos seus irmãos, foi parar a um lugar (quase) perfeito — a Terra do Nunca. Havia os seus problemas: o Capitão Gancho não o deixava em paz com o tique-taque do seu cinto. E a escolha pela juventude eterna tinha um preço elevado. O enredo ligeiramente alterado de Peter Pan não é uma analogia forçada para enquadrar a história de Michael Jackson conforme este filme: a diferença entre uma história e outra resume-se ao facto de que Michael vende a fabricação de mitos como verdade, o que é sempre a pior de todas as mentiras.

Para ser exato, o tema da verdade nas biografias “hollywoodianas” é uma não-questão: nenhuma vida poderia ser realisticamente empacotada num arco narrativo fechado e bem resolvido para vender como sabonete. As vidas são feitas de escolhas aleatórias, acasos, uma multidão de tempos mortos e interações com outras pessoas.

Michael pode ser apreciado sem qualquer sentido crítico. Foi concebido para isso e, como feel good movie, não incomoda absolutamente. Entramos numa fábula agridoce onde meio mundo do “Estate” de Jackson surge como produtor executivo (dos irmãos a um dos filhos) e inclui até o empresário John Branca — personagem (interpretada por Miles Teller) muito empática, aliás. Todas as personagens são muito meigas: Jackson (interpretado com bravura pelo seu sobrinho Jaafar Jackson) posa ao lado de crianças doentes e conversa com lhamas; dos outros, nada de inveja, rancor ou ganância. A única personagem malvada é o Capitão Gancho, quer dizer, Joe Jackson (Colman Domingo).

O resto é pura hagiografia, que não ajuda a compreender a ascensão e os múltiplos talentos colocados ao serviço de Jackson — cujo dom tampouco se põe em causa. Dá para baixar a guarda e apreciar aquilo que é o seu verdadeiro legado artístico — como o fabuloso vídeo de Thriller. Mas isso também pode ser feito no YouTube; o que o filme nem se dá ao trabalho de fazer é mostrar a sua criação com algum sentido de realismo. O vídeo foi uma megaprodução, com dinheiro a rodos para contratar nomes como Vincent Price e John Landis — acabado de sair do sucesso de An American Werewolf in London. Traz com ele, aliás, uma equipa de sonho: o responsável pelos impressionantes efeitos visuais, o lendário Rick Baker, o diretor de fotografia Robert Paynter e a figurinista Deborah Nadoolman, que criou o icónico blusão vermelho do cantor. Nenhum deles — tal como os coreógrafos geniais Michael Peters e Vincent Paterson (de Beat It) — é sequer mencionado.

Michael Jackson, que era Testemunha de Jeová na altura (daí os créditos iniciais sobre as suas “crenças pessoais”), nem simpatizava inicialmente com o conteúdo; mas aqui inventa tudo e, a dado momento, é mostrado a dar instruções a Landis sobre como posicionar a câmara. A ideia é simples e verdadeiramente ancestral: narrativas de heroísmo individual convencem e vendem; verdades e equipas são de difícil absorção coletiva. Essas reduções são comuns na história das artes, mas para um produto do já bem entrado século XXI não deixam de ser frustrantes.

Tecnicamente, o realizador Antoine Fuqua empenha-se em rebaixar o espectador à condição de fã — não de um artista, mas de um mito: o espectador fica com uma câmara a olhar de baixo, sentado a apreciar o génio, enquanto nos bastidores do mundo real toda a gente sorri e faz contas de multiplicar. As cenas de multidões histéricas foram verdadeiras na altura; o que é uma escolha do cineasta é a quantidade enfadonha delas a tentar nocautear quem assiste.

Haverá uma segunda parte e é de imaginar qual será a próxima cartada — porque, a partir dos anos 90 (este termina em 1988), entra-se numa neverland de pesadelo: decadência criativa, escândalos, paranoias, doenças físicas e mentais e, só para mencionar o que ficou de conhecimento público, uma figura duramente fraturada que terminou os seus dias a tomar anestesia geral para conseguir dormir. Como vão empacotar isso?

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Pontuação Geral
Roni Nunes
michael-a-fabula-de-peter-pan-e-a-terra-do-nuncaDá para apreciar como um feel good movie; mas também dá para questionar as narrativas sobre as quais são construídos os mitos.