Era uma vez um rapaz que não queria crescer. Com a ajuda de um dom e dos seus irmãos, foi parar a um lugar (quase) perfeito — a Terra do Nunca. Havia os seus problemas: o Capitão Gancho não o deixava em paz com o tique-taque do seu cinto. E a opção pela juventude eterna tinha um preço elevado. O enredo ligeiramente alterado de Peter Pan não é uma analogia forçada para enquadrar a história de Michael Jackson neste filme: a diferença entre uma história e outra resume-se ao facto de Michael vender a fabricação de mitos como verdade, o que é sempre a pior de todas as mentiras.

Para ser exato, o tema da verdade nas biopics de Hollywood é uma não-questão: nenhuma vida poderia ser realisticamente empacotada num arco narrativo fechado e bem resolvido para vender como sabonete. As vidas de quem quer que seja são feitas de escolhas aleatórias, acasos, uma multidão de tempos mortos, interações com outras pessoas e assim por diante.

Michael pode ser apreciado sem qualquer sentido crítico. Foi para isso que foi concebido e, como feel good movie, não incomoda absolutamente nada. Entramos numa fábula agridoce onde meio mundo do Estate de Jackson surge como produtor executivo (dos irmãos a um dos filhos) e inclui até o empresário John Branca — personagem (vivida por Miles Teller) bastante empática, aliás. Todos são muito meiguinhos: Jackson (interpretado com bravura pelo seu sobrinho Jaafar Jackson) posa ao lado de crianças doentes e conversa com lhamas; já dos outros, nada de inveja, rancor, ganância, etc. O único malvado é o Capitão Gancho — isto é, Joe Jackson (Colman Domingo).

O resto é pura hagiografia, que pouco ajuda a compreender a ascensão e os múltiplos talentos colocados ao serviço de Jackson — cujo dom não está em causa. Dá para baixar a guarda e apreciar aquilo que é o seu verdadeiro legado artístico — como o fabuloso vídeo de “Thriller”. Mas isso também pode ser visto no YouTube; o que o filme nem sequer tenta é mostrar a sua criação com algum realismo. O vídeo foi uma mega produção, com recursos abundantes para contratar Vincent Price e John Landis — acabado de sair do sucesso de An American Werewolf in London (1981). Reuniu ainda uma equipa de excelência: o responsável pelos efeitos visuais, Rick Baker, o diretor de fotografia Robert Paynter e a figurinista Deborah Nadoolman, que criou o icónico blusão vermelho do cantor. Nenhum deles, tal como os coreógrafos Michael Peters e Vincent Paterson (de “Beat It”), é sequer mencionado. Jackson, que era Testemunha de Jeová na altura (daí o aviso inicial sobre as suas “crenças pessoais”), nem simpatizava inicialmente com o conceito; aqui, porém, surge como autor de tudo e, a dado momento, até a dar instruções a Landis sobre o posicionamento da câmara. A ideia é simples e antiga: narrativas de heroísmo individual convencem e vendem; verdades e equipas são mais difíceis de assimilar. Ainda que tais simplificações sejam comuns na história das artes, num produto do século XXI tornam-se frustrantes.

Tecnicamente, o realizador Antoine Fuqua empenha-se em rebaixar o espectador à condição de fã — não de um artista, mas de um mito: a câmara olha de baixo, como quem contempla um génio num pedestal, enquanto nos bastidores do mundo real todos sorriem e fazem contas. As cenas de multidões histéricas foram reais na altura; o que é escolha do cineasta é a quantidade excessiva dessas sequências, numa tentativa insistente de impressionar quem vê.

Haverá uma segunda parte, e é fácil antecipar o caminho: a partir dos anos 90 (o filme termina em 1988), entramos numa Neverland de pesadelo — decadência criativa, escândalos, paranoia, doenças físicas e mentais e, entre outros elementos públicos, uma figura profundamente fraturada que terminou os seus dias a recorrer à anestesia geral para conseguir dormir. Como será isso apresentado?

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Roni Nunes
michael-a-fabula-de-peter-pan-e-a-terra-do-nuncaDá para apreciar como um feel good movie; mas também dá para questionar as narrativas sobre as quais são construídos os mitos.