Se Jordan Peele decidisse refilmar Big Trouble in Little China (1986), mas com uma cadência à la John Wick (2014), o resultado seria They Will Kill You (Eles Matam-te, 2026), o filme moralmente mais insano (no melhor sentido do termo) do primeiro trimestre de 2026, com audácias políticas e destrezas técnicas que normalmente se associariam ao Cinema B. Neste caso, trata-se de uma produção de estúdio, da Warner Bros., que saiu do papel graças à supervisão artística do realizador argentino Andy Muschietti (de Mama (2013) e do subestimado The Flash (2023), mas com um orçamento reduzido para os padrões da indústria: cerca de 20 milhões de dólares. Isso ajuda a explicar as ousadias — e a violência de um gore quase visceral — assumidas pelo realizador Kirill Sokolov. O seu excelente No Looking Back (2021), uma comédia ácida e tensa, serviu de cartão de visita para este salto para solo americano, num filme sintonizado com as sequelas de exclusão da era Trump. O encontro com uma inspirada Zazie Beetz — há muito merecedora de um projeto à altura do seu carisma — suaviza as arestas de um espetáculo que se impõe como uma montanha-russa… regada a coágulos frescos.
Filmado na Cidade do Cabo, They Will Kill You estreia em Portugal como Eles Matam-te e chega ao Brasil com o título Eles Vão te Matar, mantendo a fidelidade a um aviso escrito num vidro por um zelador, Ray (Paterson Joseph), dirigido a uma jovem recém-saída da prisão que tenta uma vaga de limpeza num prédio de luxo (de aparência sinistra), habitado maioritariamente por brancos. Ray, tal como ela, tem raízes africanas e conhece bem a pobreza. A ex-reclusa, Asia Reaves (personagem de Zazie Beetz), chega a esse edifício de Nova Iorque em busca de mais do que um salário elevado: ouviu dizer que a irmã mais nova, Maria (Myha’la), passou por ali e desapareceu. Existe o risco de estar morta. Asia quer descobrir o seu paradeiro e, se possível, recuperar o corpo.
Os problemas multiplicam-se assim que é apresentada à sua superiora, a governanta Lilith, papel que Patricia Arquette compõe com ares de bruxa, numa semelhança evidente com a interpretação (oscarizada) de Amy Madigan como tia Gladys em Weapons (2025). A analogia dissipa-se quando Arquette liberta os demónios do seu vasto arsenal interpretativo, à medida que o filme se revela um híbrido entre thriller de ação (à moda de Kill Bill: Volume 1 (2003)) e terror metafísico. Não por acaso, Muschietti realizou It (2017) — e percebe bem o peso do sobrenatural.
O que o produtor e Sokolov entregam é uma narrativa de satanismo com ecos marxistas. Há uma seita de adoradores do Diabo naquele edifício, que encarnam o Senhor das Trevas na cabeça de um porco (com a voz de James Remar). A presença de pessoas pobres no mundo serve de alimento a Satanás. O prazer daquela elite burguesa passa por sacrificar quem nada tem. Maria foi contratada para esse fim. A vez de Asia aproxima-se.
A diferença é que ela — heroína improvável da luta de classes — domina golpes de caraté e técnicas de esgrima com uma destreza impressionante. As coreografias que expressam essa vertente guerreira desafiam a gravidade, num espetáculo de grande intensidade visual.
Sob a luz dionisíaca do diretor de fotografia Isaac Bauman, esta premissa dá origem a uma valsa de sangue que roça o paroxismo, na fusão entre alegoria política e delírio pop, com uma estética de videoclipe que o montador Luke Doolan conduz com pulsação acelerada. Parece um comboio desgovernado. E é — até deixar de o ser. Porque Muschietti e Sokolov encontram, no meio do caos, uma linha crítica mordaz para pensar a microfísica da submissão — e as suas possíveis saídas. A mais eficaz parece ser a reação: um “basta!” dito com adrenalina.



















