Concebido como um convite ao terceiro Oscar de Denzel Washington e recheado com todos os requisitos necessários para isso, “Highest 2 Lowest” estrutura-se a partir de uma premissa repetida algumas vezes em cena: “Atenção é a única moeda“. Nessa fala, Spike Lee deixa evidente que o interesse em usar um alto executivo da indústria da música de Nova Iorque é um caminho para devassar a sociedade do espetáculo, que, na era do algoritmo, demanda experiências nas raias da violência a fim de mobilizar as atenções. Sob esse módulo reflexivo nota-se um conto moral na cena do rap, do hip-hop e de candidatas a divas do hinário romântico. Fala-se sobre a ruína do altruísmo à força do capitalismo, que só não parece ter verba à altura do que a verdadeira amizade custa. Por isso, é pelas vias da lealdade – um tema que aproxima Spike de Denzel desde “Mo’ Better Blues“, lá de 1990 – que a triagem do cineasta para as nódoas antiéticas do sistema financeiro se pavimenta. Utiliza uma base tensa de thriller para isso. Nos enquadramentos, Matthew Libatique assegura à direção de fotografia o colorido dionisíaco necessário para a transposição que Spike faz de uma trama inspirada por Akira Kurosawa para os dias de hoje.
O realizador de “Jungle Fever” (1991) arrisca-se a um remake de “High and Low” (“Ceú e O Inferno”, de 1963) que se ambienta na Nova Iorque de 2025. Elétrica, com um eixo inicial de melodrama e um terço final feérico, digno de alusões a “The French Connection“(1971), “Highest 2 Lowest” segue a chantagem que é feita contra o produtor David King com a ameaça de sequestro do filho. Uma fortuna é exigida para o resgate do jovem e o caso logo cai na imprensa e vira um circo mediático. Logo, a polícia percebe que o raptado, na prática, não é o rebento de King e, sim, um sobrinho adotivo dele, filho do seu melhor amigo e motorista, Paul, vivido com esplendor por um Jeffrey Wright com ares de samurai (silencioso e atento). Sem a ajuda de seu camarada e chefe, o chofer não tem como salvar a sua cria. Ao telefone, em ligações nunca rastreáveis, o sequestrador segue com ameaças. Preso a um laço histórico de camaradagem por Paul, King entra num abismo existencial no dilema entre desembolsar o montante de dinheiro exigido ou não. A inquietude revela camadas internas do protagonista, que passa por sua árdua batalha para se firma na carreira. A dinâmica evoca o que se passava com o magnata da aviação vivido por Mel Gibson em “Ransom” (1996), de Ron Howard. Pouco a pouco, sob uma banda sonora que nunca cessa, Spike vai executando as suas marcas visuais, como closes em planos que se movem num tempo não realista. Ao mesmo tempo, ele lança mão nas cartilhas documentais ao filmar os comboios nova-iorquinos e incorporar um show celebrativo da imigração porto-riquenha. O que se engatilha é um caldeirão cultural que corre em paralelo a um conjunto de códigos do cinema de ação.

















