Fábrica viva das BDs, a serviço das artes gráficas desde 1984, Chuck Dixon já escreveu de tudo na Marvel e na DC, com especial dedicação a Frank Castle (“Punisher”) e Bruce Wayne, o Batman, embora o seu repertório de heróis englobe ainda do bárbaro Conan a Aves de Rapina de Gotham City. Dínamo da escrita, famoso por testar os limites de sobrevivência dos seus vigilantes, ele fez uma aposta na literatura na viragem dos anos 2010 para os 2020 ao confeccionar uma franquia de romances centrado nos perigos do militar reformado Levon Cade. Fortunas engordaram os cofres do mercado livreiro com essa série sobre um exército de um homem só que, apesar de farto da guerra, não consegue se livrar dela. O perigo está sempre no seu encalço. Qual Jack Reacher, hoje um midas de audiência na Amazon Prime, ele é um homem bom de chapadas e bom de tiro que magnetiza riscos no seu empenho de levar uma vida pacata. Matéria-prima melhor para animar a rotina cinematográfica do inglês Jason Statham, o Charles Bronson dos novos tempos, é impossível. Não por acaso, um dos volumes da saga de Dixon, “Levon’s Trade”, chegou oas cinemas no fim de março (de 2025), com êxito comercial mundo afora. Só no arranque da estreia, a produção de US$ 40 milhões faturou US$ 32 milhões.

Incorreção política é um quesito (moral) no qual o filme derivado das aventuras de Levon, “A Working Man” (“Um Trabalhador Implacável”, em Portugal/ “Resgate Implacável” no Brasil), aposta sem dó. Chega a haver espaço para um explícito exercício de product placement, dos mais publicitários, no qual uma colecção de armas é apresentada à personagem de Statham, a municia-lo de opções destrutivas, numa propaganda indisfarçável de arsenais bélicos. Ainda na linha do “incorreto”, a violência não passa por filtros. A maneira como o realizador David Ayer – na sua mirada autoral sobretudo formal – se apropria dela começa crua e caminha para uma vertente grotesca, ou melhor, gore. Ayer é hoje o papa do cinema de ação “sangue e tripas”.

Statham virou o seu ator fetiche depois de “Beekeeper” (2024), que também custou US$ 40 milhões e, no meio da Oscar season que coroou “Oppenheimer”, arrecadou imponentes US$ 163 milhões. Os dois, ator e cineasta, formam uma sinergia de covalência pura e plena, bem-vinda a um género que vive no cadafalso moralista das patrulhas ideológicas desde a primeira metade dos anos 1990. Até ela chegar, Schwarzenegger, Steven Seagal, Van Damme e Dolph Lundgren eram os suseranos de um feudo onde a brutalidade de impôs como estado de coisas das narrativas pop, a traduzir o zeitgeist do degelo utópico do fim da Guerra Fria. Destaque entre essa gente para Sylvester Stallone, o com maior êxito e mais respeitado (nomeado a estatuetas da Academia por “Rocky” e por “Creed”), reinventado agora na era do streaming com a série “Tulsa King”, na Paramount +. Citá-lo aqui é essencial, pois é dele o argumento de “A Working Man”. Statham, o seu parceiro em “The Expendables”, é quase um herdeiro do seu legado.  

Stallone escreveu para ele antes “Homefront” (2013), traduzido na lusofonia como “Linha de Frente”. O eterno Rambo entende o poço de carisma que Statham é e sabe operar a persona de ferrabrás dele numa perspectiva diferente da que o cinema oferece aos heróis de hoje: a vertente da vulnerabilidade. Sly (como São Sylvester é apelidado) a descarta por completo. O Levon Cade de Statham não apanha, não perde, não sofre (nem por dentro). Ao contrário do que se via com Bruce Willis no mítico “Die Hard” (1988), ele não sua, nem se corta. Ele mata, como um predador imparável. É esse a veia dramatúrgica que encontra ressonância na forma como Ayer entende as histórias de justiça e vingança.


Num momento em que a tetralogia “John Wick” (2014-2023) sofisticou o cenário do action movie  pela cinemática, ou seja, pelo movimento, numa lavra de longas-metragens realizadas por duplos (como Chad Stahelski), Ayer assegura ao filão uma nova frente, que desafia puritanismos e a agenda woke a celebrar uma reação instintiva ao que entende como Mal. O imperdível “End of Watch” (“Marcados Para Morrer”, de 2012), no qual retratava a ronda de dois policiais (Jake Gyllenhaal e Michael Peña) sob ângulos inusitados, serviu-lhe como credencial de excelência para que pudesse libertar adrenalina e abrir discussões sobre inadimplências estatais em relação à segurança pública. Inflamou esse debate com Schwarzenegger em “Sabotage” (2014), uma pérola pouco valorizada, e com “Suicide Squad” (2016), onde repaginou Margot Robbie na figura de Harley Quinn. Em cada longa-metragem dessas se vê uma torção de “valores do Bem”, na qual quem precisa se responsabilizar pela Justiça são indivíduos nas margens da sociedade. Essa dinâmica se aplica na obra de Ayer ainda no estonteante “Fury” (também de 2014), que levou Brad Pitt, de tanques, até à II Guerra.

Em maus lençóis com a DC depois de perder o corte final do seu Esquadrão Suicida, Ayer viveu uma fase no abismo da frustração artística, abraçado a seu rancor, quando passou fazer um cinema ainda mais livre, vide o ótimo “The Tax Collector” (2020), lançado em meio à pandemia sem muito alarde. Com “Beekeeper”, o seu prestígio como um artista apto a mobilizar as bilheteiras redimiu-se. Foi aí que chegou ao universo de Chuck Dixon.

Desde “The Transporter” (2002), Statham tornou-se uma estrela popular da pancadaria, com fortunas feitas no box-office, vide “The Meg” (2018), e se embrenha agora pela prosa de Dixon numa premissa que evoca “The Searchers” (1956). Na Odisseia fordista, John Wayne arrastava a poeira do Monument Valley por anos a fio atrás da sua sobrinha sequestrada. Em “A Working Man”, quem desaparece é a filha do chefe de Levon, um empresário vivido pelo já citado Michael Peña. Os seus raptores formam uma rede de traficantes de humanos, num comércio de sexo já retratado em “Taken” (2008), com Liam Neeson.

Abalado por perdas no seu passado, tratadas sem muito relevo no guião de Stallone, Levon já não dá mais valor ao seu histórico de combates, embora apele para os punhos e os pontapés ao ver injustiças no canteiro de obras onde trabalha. A construção civil hoje é seu negócio. Viver dele é cómodo, mas precisa ajudar a menina raptada que sempre foi atenciosa com ele. Aí começa o apocalipse, num enredo em que Statham diminuiu a densidade populacional da criminalidade.

Em sintonia com o atual montador oficial de Tarantino (Fred Raskin), Ayer encontra a medida mais precisa da sua obra (até aqui) para descortinar o frenesim de fúria que lhe é peculiar. Shawn White cuida da direção de fotografia a partir de um investimento no excesso (de cores, de enquadramentos mais próximos de Levon, em tomadas bruxuleadas). Assegura estilo a um artesão da porrada que estuda os limites da Lei. 

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
a-working-man-a-artesania-autoral-da-pancadaEm sintonia com o atual montador oficial de Tarantino (Fred Raskin), Ayer encontra a medida mais precisa da sua obra (até aqui) para descortinar o frenesim de fúria que lhe é peculiar.