É inato a Hollywood pegar nas mesmas velhas histórias, dar-lhes uma nova pintura e devolvê-las de volta ao espectador, tudo com um ar ultra moderno e contemporâneo, com a tecnologia, a política global e o zeitgeist a serem os verdadeiros pontos do “update”.

Adaptado a partir do livro homónimo de Rumaan Alam, e seguindo o manual “The Twilight Zone” em tempos de “Black Mirror”, “Leave the World Behind” (Deixar o Mundo Para Tráspt; O Mundo Depois de Nósbr) é uma nova tentativa da Netflix em apostar na serialização cinematográfica distópica, um passo que há cerca de cinco anos foi dado com grande sucesso por “Bird Box”, também ele liderado por uma estrela do cinema dos anos 90, Sandra Bullock. 

Agora é a vez de Julia Roberts tomar as rédeas de um filme que se movimenta entre as regras dos thrillers de alarme e os filmes-catástrofe, escondendo-se do espectador o que está por trás de todos os desastres que se vão sucedendo, ao mesmo tempo que tenta criar laços de empatia entre quem assiste e quem sofre na pele as consequências da tragédia. Nesse aspeto, a acompanhar Julia Roberts numas pequenas pequenas férias transformadas numa jornada de horrores temos Ethan Hawke, o seu marido, e dois adolescentes, uma delas a fazer o papel da “estranha” alienada da família, à la “Hereditário”, Rose (Farrah Mackenzie), e o outro, um pouco mais velho, Archie (Charlie Evans), com hormonas e humor negro a moverem o seu dia a dia.

Ainda em Nova Iorque, quando Julia Roberts tem uma epifania que a leva a concluir que não gosta de pessoas e precisa de férias, o espectador sente que algo de estranho vai acontecer à família, algo que ganha força quando o quarteto, já numa praia do local escolhido para as mini férias, vê  – sem explicação – um petroleiro entrar pela costa adentro. O mistério avança e ganha ainda mais reforços quando o homem que lhes alugou a casa de férias, G.H. Scott (Mahershala Ali), e a sua filha, Ruth (Myha’la), lhes batem à porta a meio da noite e lhes pedem para pernoitar, pois alegadamente um apagão generalizado e a falha das telecomunicações os deixou sem outra alternativa.

Num ano em que “Knock at the Cabin” de M Night Shyamalan nos trouxe os “Cavaleiros do Apocalipse”, naturalmente que este início de “Leave the World Behind” deixa-nos no mesmo terreno de imaginar o pior. Algo que se confirma nos dias que se seguem, com cada uma das personagens a descobrir mais detalhes de um mundo, extremamente dependente da robótica e GPS, a entrar em colapso, sem que haja a certeza do que realmente provocou o caos. Será um mega ataque de Hackers a todos os sistemas? Será um ataque de um inimigo externo aos EUA (árabes, coreanos, chineses, russos?)? E porque diabo os animais parecem querer avisar os humanos do que está para vir? Todas as hipóteses estão em aberto e todos os momentos de tensão por aqui estão construídos com descobertas em simultâneo por parte das diversas personagens, tudo através de uma montagem (de Lisa Lassek) dinâmica, atmosfericamente enegrecida pela nervosa banda-sonora de Mac Quayle.

Sam Esmael, capaz de gerir thrillers serializados, onde cibersegurança e geopolítica se cruzam na perfeição, como se viu na série “Mr. Robot”, consegue prender o espectador na sua amálgama de mais perguntas que respostas, mas derradeiramente este sente-se mais um daqueles casos – como “Lost”, por exemplo – em que o espectador treinado tem clara noção que a montanha vai parir um rato. Na verdade, “Leave the World Behind” é um daqueles objetos derivativos cataclísmicos com inclinação para a sequela ou spinoff, deixando portas abertas e muitas questões sem resposta, propositadamente, para as poder responder ao longo de vários capítulos, enchendo de gordurinhas e sub-enredos que não levam a nenhum lado uma trama complexa movida pelo caos. E mesmo os esforços em abordar temáticas como o racismo, o individualismo e a dependência tecnológica do homem, bem como a alienação parental (que sofre Rose), esvaziam-se de qualquer reflexão ou sentido crítico, permanecendo apenas no campo simbólico.

No final, é ainda apresentada a personagem de Kevin Bacon com dotes de sobrevivência, uma figura típica nestes filmes pós-apocalípticos, que tanto podia estar aqui como em “The Walking Dead”, “Tomorrow, When the War Began”, “Bird Box” e até “Tremors” (assumindo o papel entregue a Michael Gross), tal a sua forma padronizada de construção.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/tugf
Pontuação Geral
Jorge Pereira
leave-the-world-behind-o-fim-do-mundo-prossegue-dentro-de-momentosSam Esmaeli consegue prender o espectador na sua amálgama de mais perguntas que respostas, mas derradeiramente a montanha vai parir um rato