Philip Roth (1933-2018), escritor que inspirou o filme mais potente da obra da catalã Isabel Coixet, o pouco citado “Elegy”, de 2008, alertava na sua prosa: “É impossível observar pessoas através de uma ideologia. A sua ideologia observa por você”. O que parece de haver de mais ideológico no possante novo filme da realizadora espanhola, “Un Amor” (na corrida à Concha de Ouro San Sebastián) não está nas pesquisas idiomáticas feitas pela tradutora Natalia (a ótima Laia Costa), mas sim na microfísica do controle que rege a vida das províncias ruais. Por lá, outra máxima de Roth se faz realidade: “Não se pode obrigar alguém a dizer a verdade, assim como não se pode forçar alguém a amar-nos.” Ocupada em patrulhar a alcova alheia, a comunidade que recebe Nat de modo feudal, disfarçando hostilidade com falsas aparências, vai ensiná-la que querer nem sempre é poder, uma vez que as resiliências heroicas não são bem-vindos em espaços governados pela mesquinharia.
Na trama importada da literatura de Sara Mesa, extraída das páginas do best-seller homónimo, Nat é uma bailarina de dança contemporânea que parou de dançar e passou a se dedicar ao trabalho de intérprete e a traduções, especializando-se nas necessidades de uma organização de apoio a refugiadas africanas. O seu espírito feminista guiado pela sororidade leva-a a se debruçar sobre os depoimentos de mulheres em diáspora. Conflitos com esse trabalho que só vão ser explicados no trecho final da longa de Coixet fazem com que ela também busque um êxodo, para o campo, atrás de paz. Vai alugar um casebre (caindo aos pedaços) cujo locatório é um sexista malcriado, que a trata a patadas. os seus vizinhos têm uma atitude aparentemente cordial com a forasteira, mas não escondem o incómodo com o seu perfil isolado e com um cão que ela adota. É um microcosmos de dissimulações e asperezas.
Mas algo de muito estranho vai sacudir a inércia daquele povoado feroz depois de um dos seus mais misteriosos moradores, Andreas, chamado de o Alemão (papel de um telúrico Hovik Keuchkerian, em impecável desempenho), estabelece uma ciranda sexual com Nat. Ela vai até a sua casa, levando verduras e legumes que planta, oferecendo-se a ajuda-la com as suas telhas quebradas em troca de leva-la para cama. É uma proposta direta, sem meios-tons, selvagem como o estilo desta figura cheia de segredos, isolado na sua introspecção. Quando ele faz a proposta, esperamos o repúdio de Nat, mas ela desenvolve uma inegável atração por ele, que passa a exercer por vontade própria, invertendo os códigos de dominação que Coixet explorou bem em “Elisa y Marcela” (nomeado ao Urso de Ouro de 2019) e “It Snows in Benidorm” (2020). O sexo entre eles não tem disciplina, não busca a languidez corriqueira de enquadramentos estilizados. Pelo contrário. O sexo ali é visceral, abrupto e errático, numa geometria de curvas, nada retilínea. É a bestialidade do desejo, desfreado e incontestável, que move a cineasta no seu regresso às telas, cartografando o instinto dos seus protagonistas num desenho no qual a razão não vai além do esboço. A montagem eletrizante intensifica o tónus melodramático que ela salpica na narrativa, elegantemente fotografada por Bet Rourich (de “El Orfanato”).
Em seu corpo a corpo com um organismo literário na sua génese, Coixet valoriza a força das palavras em diálogos sagazes, mas não se submete a eles. Não é um filme subserviente ao verbo. Parte dele para construir imagens que captam o lado mais inusitado da alma, na nossa mania de gostar de outrem.



















