Produzido por Darren Aronofsky no seu filme anterior (a curta-metragem “The Vandal”, de 2021), o americano Eddie Alcazar parece estar a tentar emular espectros estéticos de “Pi” (1998), um dos marcos de seu antigo colega como realizador, no empenho em oferecer algo de novo, em termos formais, à ficção científica em “Divinity”. Apesar da exuberância visual de sua plasticidade em branco e preto, confirmando o apuro de Alcazar para a fotografia preto e branco, o novo exercício autoral desse cineasta pelo terreno do descontrole (o seu tema por excelência) acaba soterrado por uma estetização ambiciosa, mas mal escarada seja em conceito, seja em retidão. Ou seja, toda a experiência para disfarçar o facto de ele estar a fazer uma cópia de “Duna” tropeça num excesso de cortes rápidos, tremulação de planos desfocados, justaposição e todo o tipo de aeróbica de câmara possível. É virtuoso, mas é vazio. O que fica é apenas uma (boa) aventura, cheia de tensão – nisso, Alcazar é muito competente, ou seja, em eletrizar – só que prejudicada por uma roupagem vanguardista inadequada para a sua silhueta pop.
A presença de Steven Soderbergh como produtor garantiu a “Divinity” alguma notoriedade na seleção de festivais internacionais, como Sundance, e trouxe para o elenco um dos atores mais recorrentes do cineasta por trás de “Sexo, mentiras e vídeo” (Palma de Ouro de 1989): o sempre eficaz Scott Bakula. Mas é Stephen Dorff, com o seu carisma de bad boy, quem rouba cada filigrana de atenção que a longa-metragem consegue despertar.
Na trama, estamos em um mundo de cronologia não definível onde o cientista Sterling Pierce (Bakula) dedicou a sua vida à busca da imortalidade, criando um soro inovador chamado Divindade, capaz de refinar as habilidades humanas e estender a nossa durabilidade. Parece um pouco “Zardoz” (1974), de John Boorman, mas com figurinos de menor teor kitsch. Nesse universo o seu filho de Pierce, o excêntrico Jaxxon (Dorff, impecável), controla e fabrica agora o sonho outrora benévolo do pai. A sociedade deste planeta estéril foi totalmente pervertida pela supremacia da droga, cujas verdadeiras origens estão envoltas em mistério. Dois irmãos misteriosos chegam com um plano para raptar o magnata e, com a ajuda de uma mulher sedutora chamada Nikita (Karrueche Tran), serão colocados num caminho que os levará à verdadeira imortalidade.
Tudo o que você verá em cena lembra a literatura de Frank Herbert, seja na versão que David Lynch deu a “Dune”, em 1984, seja na adaptação recente (e incompleta) de Denis Villeneuve, iniciada em 2021. Tudo parece genérico, menos Dorff.


















