Festa pagã para a cultura americana celebrizada (ou endemoniada) na máscara soturna de Michael Myers, o 31 de Outubro é chamado nos EUA de Halloween e traduzido no português do Brasil como “Dia das Bruxas”, numa alusão ao facto de essas criaturas – mulheres fisicamente alteradas pela prática do ocultismo – simbolizarem a ruína de uma sociedade. Ao destrinchar o american way of life em seu magistral “Wild Heart” (“Coração Selvagem”, Palma de Ouro de 1990), David Lynch pôs uma feiticeira a voar numa vassoura para simbolizar o pavor de Sailor e Lula (Nicolas Cage e Laura Dern) em relação aos impeditivos sociológicos da sua relação. Logo, pensou em bruxa, pensou em ruínas, embora prática religiosas como a wicca sugiram margens opostas, simbolizando essa classe de praticantes da magia como estudiosas da Natureza. As variantes em torno desse signo, witch, expandem o valor de X ao infinito… ou ao pavor, como mostrou ao Festival de Locarno, no dia 4 de agosto, a longa-metragem americana “Falling Stars”, de Gabriel Bienczycki e Richard Karpala. O corpo morto que serve de vetor ao assombro na trama é uma reinvenção de um mito quase sempre associado ao sexismo e à demolição da potência criativa do feminino.
Que a Bruxa de Blair se cuide, pois o trabalho alentado de dramaturgia que essa dupla de realizadores fez a partir da mítica das necromantes, das taumaturgas, das evocadoras de espíritos zombeteiros e todas as demais formas de se qualificar maga recicla várias convenções de género. “Falling Stars” traz algo cada vez mais escasso no cinema: uma premissa original. As tais estrelas cadentes do seu título em inglês são testemunhas de uma jornada paranoica de fuga das forças do Mal empreendidas por um grupo de jovens que, num deserto próximo a Las Vegas, desenterra as ossadas de uma velha senhora que, em vida, foi cercada de maus presságios acerca dos seus contatos com o Além.
O que impele a turma a se embrenhar pelas estradas é a ideia de que a tal senhora foi bruxa. Quando um dos jovens derrama cerveja acidentalmente no cadáver putrefato que encontraram, uma série de sombrios incidentes condena aquele grupo à purgação. Ao mesmo tempo, essa purga rende ao terror uma renovação dos seus códigos.
Com uma montagem agilíssima, “Falling Stars” opera mais na chave da insinuação do que da exposição gráfica, evitando sangue, tripas e bestialidades explícitas. É por meio na palavra que o pânico é transmitido, como um contágio salivar. Mas a narrativa não se limita à fantasia horrorífica, buscando também uma investigação sobre os códigos morais da sociedade americana. Por trás do gesto de profanação empreendido pelas personagens – todas de classe média baixa -, percebe-se uma cartografia etnográfica das relações de poder e submissão de mulheres e homens que precisam se adequar às transgressões de um grupo de amigos para sentirem que estão seguros. Logo, o que os realizadores promovem, no seu Halloween fora de época, é um esforço de exumação das dificuldades de aceitação da sociedade norte-americana
A sua habilidade de fazer o público se agarrar na cadeira (de medo) é espantosa (literalmente). Mas o grande mérito é dar à bruxaria um tratamento antissexista, libertando o “monstro” que move a trama de vetores machistas. O que mais aterroriza em “Falling Stars” não é um símbolo feminino e, sim, a ignorância de uma cultura intolerante.



















