Mais que a jornada de uma jovem pelas estradas da América à procura da mãe que a abandonou em criança, “Bones and All” (Ossos e Tudo), o novo filme do italiano Luca Guadagnino, adaptado a partir do livro de Camille De Angelis, é um conto de descoberta pessoal, partindo o espectador da busca de alguém para encontrar mais detalhadamente quem é a pessoa que a procura.
O twist aqui é que o mundo em que Taylor Russell e Timothée Chalamet habitam, e onde Mark Rylance tem uma aparição tão estilizada como exagerada, vive pelas regras do canibalismo (o fantasma de Armie Hammer paira no ar), tema que é tratado com carnalidade, desejo, verginha e gore, sempre com a energia (ou encosto) ao tradicional cinema independente norte-americano, com um casal amaldiçoado na tradição das road-trips que “Badlands” vulgarizou.
Vindo do remake de “Suspiria”, com a fome habitual de entregar histórias agridoces e memoráveis de tom romantizado triste (Call Me By Your Name), Guadagigno traz consigo alguns tiques giallo (Trent Reznor na banda-sonora ajuda), mas falha completamente na conquista do espectador devido a uma montagem que transforma o filme num conjunto de vinhetas aos círculos por uns EUA em plena decadência ética, moral, e a viverem da apatia.
E no meio de (mais) uma pesada alegoria sobre os marginalizados, os desajustados da sociedade, e o processo de de descoberta pessoal de toda uma nova geração de órfãos e desenraizados, “Bones and All” nunca se impõe para fora das barreiras das sagas literárias construídas para jovens adultos, onde a verdadeira ousadia é limitada, ao contrário do choque, frequente e superficial.
No final, temos um produto MTV de autor, onde verdadeiramente o que sobressai é a descoberta da excelência de Taylor Russell na atuação. Só por causa dela, mais que pela sua personagem ou relação que cria com a de Timothée Chalamet (um “Beautiful Boy” em modo canibal), “Bones and All” merece uma olhadela. Mas podia ser tão, tão mais em tudo, que a única coisa que no final dos deu vontade foi rever “Grave” de Julie Ducourneau e “Trouble Every Day” de Claire Denis.




















