Adaptação ao cinema de “Mrs. ‘Arris Goes to Paris”, escrita em 1958 pelo norte-americano Paul William Gallico (1897-1976), o mais recente filme de Anthony Fabian (Louder Than Words) é uma fábula romantizada “feel good” com uma heroína pouco habitual no cinema contemporâneo: uma sexagenária, interpretada com todo o charme e carisma por Lesley Manville, empregada da limpeza no final dos anos 1950, em Londres, que parte para Paris com o sonho de comprar um vestido Christian Dior.

Filme onde a questão de classes e mensagens de bondade atravessam todo o enredo, embora no centro esteja o desejo capitalista de posse de um pedaço de Haute Couture, como um ato de magia e transformação pessoal, perpetuando estereótipos, “Mrs. Harris Goes to Paris” tem como mais valia a sua forma particular de emancipação no feminino, começando por analisar – em pano de fundo – um doloroso (mas reconstrutivo) pós-guerra onde a protagonista ainda espera notícias do marido que nunca regressou do conflito.

Impondo uma fotografia saturada, que acentua os contrastes de cores garridas, a fotografia de Felix Wiedemann, associada à direção artística de Zoltán Sárdi e o guarda-roupa de Jenny Beavan, transportam o espectador com facilidade para uma estilizada Londres e Paris da década de 1950, com a direção de atores a contribuir com instruções precisas sobre a construção de personagens que se sentem da época.

É aí que Lesley Manville, que curiosamente tinha um papel em “Linha Fantasma” (onde a moda estava também em destaque) muito diferente da doçura aqui exibida, se destaca da multidão, onde apenas a portuguesa Alba Baptista dá um ar da sua graça juntamente com Lucas Bravo, num sub enredo romântico que trafega lado a lado com a história principal. Em oposição, Isabelle Huppert parece uma vilã num filme da Disney, enquanto Jason Isaacs e Lambert Wilson, os potenciais interesses românticos de Manville, parecem subaproveitados, não diferentemente do que estávamos há uns anos habituados com as personagens femininas por trás de figuras masculinas centrais.

No meio de tudo isto, e na forma da sua narrativa mapeada de A para B, e finalmente C, “Mrs. Harris Goes to Paris” soa demasiado familiar e previsível, ainda que doce e capaz de elevar o espírito do espectador adulto. Nisto, fica de certa maneira em aberto a hipótese de haver uma continuação, tal como na literatura, com a Mrs. Harris a partir para Nova Iorque.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
mrs-harris-goes-to-paris-lesley-manville-e-alba-batista-em-conto-de-fadas-a-antigaFilme onde a questão de classes e mensagens de bondade atravessam todo o enredo, “Mrs. Harris Goes to Paris” tem como mais valia a sua forma particular de emancipação no feminino