Metáfora nada subtil, carregada a tons pastel, sobre os efeitos de uma educação rígida e controladora na passagem da infância para a adolescência, “Ovo” (“Hatching” é o título internacional) marca a primeira incursão na realização da finlandesa Hanna Bergholm, a qual, recorrendo ao surrealismo de pitadas metamórficas, nos entrega um body horror derivativo que deve mais na estética e eficácia ao canal SyFy que aos grandes nomes do cinema que elevaram o subgénero, como David Cronenberg.
Com mais “hype” que merece, tudo graças a um festival de cinema (Sundance) que se tem notabilizado nos últimos anos por vender banha da cobra apenas ELEVADA pela excessiva ADJETIVAÇÃO de qualquer filme que por lá passe por parte dos críticos nascidos no Twitter, “Ovo” segue uma família tão perfeita como as melhores fotos publicadas pelos influencers de luxo no Instagram. É nela que a pequena Tinja (Siiri Solalinna), com ambições impostas na ginástica pela mãe, tenta marcar a sua individualidade perante uma matriarca castradora (Sophia Heikkila), um pai inócuo e um irmão pequeno. Quando um dia ela encontra um ovo na floresta adjacente à sua casa, e o leva consigo, uma criatura regada pelas suas lágrimas irá provocar uma revolução na sua vida.
Particularmente nos ditos países nórdicos, o cinema de terror e horror tem andado frequentemente de mãos dadas com estudos sobre a pré-adolescência, adolescência e jovens adultos, rejuvenescendo velhas formas coming-of-age através de abordagens fantásticas. Se “Os Inocentes” de Eskil Vogt são um bom exemplo disto que estamos a falar, no passado recente tivemos ainda “Thelma” de Joachim Trier ou “Let the right one in” de Tomas Alfredson a expandirem barreiras tradicionalmente do drama e a tocarem no fantástico. Mas se nos exemplos citados, tudo se sentia de forma orgânica, com emoções pessoais a servirem de princípio para chegar a questões sociais, em “Ovo” tudo se sente postiço no seu incoar de uma história de doppelgängers como reflexo de rebeldia e independência de uma jovem perante o mundo de bonecas onde vive.
É que “Ovo”, na sua escassa duração, é sempre demasiado óbvio, gráfico e nada sugestivo no seu modus operandi, com qualquer simbolismo por decifrar a ser esmagado pelo peso do guião e da realização via explicações diretas e totalitárias. Por isso mesmo, é um filme que termina em si próprio, pois qualquer discussão ou interpretação dele choca com a significação já dada pela realizadora na sua direção pesada.
Isto não quer dizer que seja uma experiência cinemática completamente perdida, até porque Hanna Bergholm mostra ter qualidades que apenas necessitam refinamento. Porém, como objeto que muito deve aos códigos e regras do cinema de horror, entre a metáfora e o filme de criaturas, é demasiado evidente e artificial.



















