Não é uma tendência recente, mas têm se acentuado nos últimos tempos, um pouco por todo o lado, o regresso em força de produtos cinematográficos que nos levam às décadas de 80 e 90, normalmente através do olhar de autores que passaram a sua infância nessa era.
No leste europeu não é diferente, com a chegada de filmes e séries que partem de histórias biográficas para mostrar os primeiros tempos pós-comunistas, das dificuldades ligadas ao legado às novas liberdades e invasão da cultura ocidental. A Ucrânia é um dos países cujos cineastas têm apostado nesse revisitar o passado, talvez em jeito de terapia, talvez uma consequência apenas da nostalgia, e do mesmo produtor de “Luxembourg, Luxembourg”, que estreou este ano no Festival de Toronto, chega-nos agora primeira longa-metragem de ficção da cineasta ucraniana Iryna Tsilyk, estreada no Festival de Varsóvia, a qual baseia-se no romance autobiográfico de Artem Chekh para nos oferecer uma história coming-of-age sobre como foi crescer na Ucrânia dos anos noventa.
“Rock Paper Grenade” é um filme doce e sensível, como quase todas estas fábulas reais de amadurecimento o são, que não só nos dá um olhar a toda uma geração de adultos desajustados pela herança do passado, como mira uma nova geração que agora cobre as paredes dos seus quartos com as vedetas ocidentais da música e cinema. E esse é o caso de Timophiy, a figura central desta história, um miúdo rodeado por figuras masculinas fragilizadas pelas mais diferentes razões. Se o pai vai e vem sem acrescentar muito na sua vida além de memórias avulsas, já o namorado da Avó, Felix, acaba por ser o seu modelo masculino. Porém, este também – com um passado militar complexo – vive os seus dramas e lida com vários demónios internos, refugiando-se no álcool, não sendo assim o melhor arquétipo para Timophiy interpretado em criança por Andriy Cherednyk e em adolescente por Vladyslav Baliuk.
A narrativa episódica de todo o filme, uma “dramédia” pura com vários simbolismos (como o que dá título ao filme), que deve muito à linguagem, forma e espírito do cinema independente norte-americano, carece de coerência rítmica, e isso sente-se em particular no último terço, onde a montagem teima em nos apresentar a sucessão de eventos aos soluços, que tanto nos agarram pela ação, como afastam pelas paragens entediantes com segmentos lamechas romantizados. É aí que a banda-sonora, associada a uma estilização da fotografia muito derivativa do subgénero de filme que é (coming-of-age), toma conta do filme e decide impôr sentimentos, ao invés de os sugerir, sentindo-se mais um objeto artificial “feel good” que deveria.
Por isso mesmo, este “Conta-me como foi” na Ucrânia nunca consegue verdadeiramente sair da esfera do cliché das histórias de amadurecimento, ainda que cumpra a sua principal missão que é ao falar de um garoto, falar de uma era de transição. E ao falar do humano e pessoal, fala-se do político e social.




















