Se os primeiros momentos do filme canadiano “Before i Changed My Mind” nos levaram a pensar que poderíamos estar perante uma espécie de coming of age à la “C.R.A.Z.Y” de Jean Marc Vallée, com uma espécie de nostalgia adocicada de amor de verão à la Ozon (Verão 85), rapidamente esta primeira longa-metragem de Trevor Anderson tira-nos essa ideia e revela que por entre inúmeras camadas por explorar (amor, problemas familiares, identidade sexual, bullying, etc) no fundo apenas é um daqueles produtos ligeiros de consumo rápido e entretenimento, mais vezes encontrado na Berlinale Generations que nos Cineastas do Presente de Locarno.
Não nos espantaria, por isso, se o filme fosse “agarrado” por algum streamer influente do mercado, pois este objeto revivalista dos anos 80 sobrevive dentro dos clichês de género, como se tivéssemos numa festa temática atual sobre os anos 80? Ora, essas festas, apesar de recuperarem alguns elementos saudosistas e kitsch de uma era que tem sido explorada frequentemente no cinema e tv (veja-se Stranger Things e o modelo Goonies), nunca são os anos 80 verdadeiramente, mas um reflexo hiperbólico. Tudo no filme do estreante Trevor Anderson é, assim, caricatural e previsível, mesmo que algumas gargalhadas sejam inevitáveis, especialmente quando se organiza uma peça de teatro inspirado em “Jesus Cristo Superstar”, mas numa perspetiva de Maria Madalena.
Um dos problemas igualmente é uma direção de atores que parece nunca ter mão firme, levando os jovens a atuarem com diversos percalços e a darem passos em falso quando se lhes é exigido algum rigor dramático para criar ligação com o espectador. Um bom exemplo é a construção do triângulo amoroso que se afigura no filme, bastante artificial, isto enquanto personagens e subenredos nunca passam da mais pura distração (o mundo dos adultos é similarmente demasiado superficial).
Ainda assim, e dadas as óbvias limitações que o filme mostra, existe uma energia, sensibilidade e humor que nos levará a olhar atentamente para o futuro de Trevor Anderson, mas a verdade é que esta sua primeira longa-metragem não é mais que um qualquer filme corriqueiro da década de 80, embora os seus elementos sejam objeto de uma releitura e atualização pop/ativista que os tempos atuais exigem.




















