Primeiro filme indiano na competição internacional de Locarno em 17 anos, filmado em língua malaiala (Kerala, sul da Índia), “Ariyippu” expõe ao espectador diversas camadas e fragilidades da sociedade indiana, mas com a habilidade de ressoar a nível global.

No “olho do furacão” dramático do filme, que aposta numa linguagem de realismo social bem limado, está um casal de migrantes de Kerala, Hareesh (Kunchacko Boban) e Reshmi (Divya Prabha), que seguiu para norte e trabalha numa fábrica de luvas médicas perto de Deli, mas deseja ir para o exterior para uma vida melhor. Em plena pandemia COVID-19, um vídeo sexual explícito que os implica surge entre os trabalhadores da fábrica, sendo o casal apanhado no meio de um escândalo laboral e outro pessoal, vendo o casamento abalado ao ponto de ruptura, tanto por influências externas como turbulências internas inerentes à sua união monogâmica. 

Na origem da ideia do cineasta, que apesar da diversidade temática dos seus filmes anteriores logra permanecer em terreno de estudo de lutas pessoais, está mesmo uma história verídica, lida num artigo de jornal e que segue uma funcionária de um banco que foi até ao tribunal superior de Mumbai e exigiu uma “declaração” oficiosa, esclarecendo que um vídeo sexual que circulou no seu emprego era de alguém parecido, mas não ela.

Sempre intenso na demonstração da complexidade das relações humanas e laborais, no retrato da angústia e na gestão de alguns temas tabus numa Índia integrada totalmente  no regime capitalista, “Ariyippu” traça um retrato da precariedade (do homem como homem, da mulher como mulher, do trabalhador perante o patrão, do povo perante o poder) sem nunca o ser politicamente propagandista ou exploratório nas emoções humanas, preferindo antes acompanhar as personagens perante eventos que esses mesmos eventos.

É um forte concorrente a prémios em Locarno e a sua incursão final por terrenos dos dilemas morais aproxima-o de grande parte do cinema turco e iraniano atual, onde as personagens são abaladas pela obrigatoriedade de  tomarem decisões pessoais que condicionam a sua forma de ser e a sua ética na vida.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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