Depois da excelência alcançada em “Time to Hunt“, de Toon Sung-hyun, exibido hors-concours na Berlinale de 2020, o planisfério cinéfilo viu na Coreia do Sul o principal fornecedor de vertigens do cinema contemporâneo nas entressafras da franquia John Wick. Aliás, o matador vivido por Keanu Reeves jamais existiria como é se não fossem as sequências de luta de outro objeto de culto sul-coreano, o “OldBoy” de Park Chan-Wook, laureado com o Grand Prix de Cannes em 2004. O virtuosismo ali alcançado, numa celebração do conceito de filme B, foi capaz de desafiar todas as convenções do género action movie de Hollywood, que ensaiaram uma renovação com “Matrix“(1999), mas não conseguiam mais impressionar as plateias, apesar dos esforços “fast and furious” de Vin Diesel e da experiência francesa “The Transporter“, com Jason Statham.
A sua entrada em Cannes deve-se ao carisma do seu astro e também realizador: Lee Jung-jae. Nomeado ao Globo de Ouro por “Squid Game” (Round 6 / Ojing-eo Geim), Jung-jae fez a sua estreia na realização na Croisette, numa sessão de meia-noite abarrotada, onde deu um banho de adrenalina no festival francês.
“Hunt” é um John Wick sul-coreano, numa mistura de thriller de espionagem, suspense noir e lições de resiliência pela cartilha Chuck Norris. Lembra muito a estética de Michael Winner (1935–2013) de “The Stone Killer” (1973), nas reviravoltas sem fim e num pano de fundo que mescla conflitos de governo com acertos de contas de células criminosas. Só lhe faltou um Charles Bronson, a força que calçava a estética Winner.
A figura do vigilante exército de um homem só não cabe na narrativa de Jung-jae, que assume o papel central, saindo-se bem nas cenas de luta e de trocas de tiros, mesmo sem imprimir personalidade. Ele vive um agente que caça um espião num processo de troca presidencial. Falta estilo, mas a sequência final, de quase 20 minutos de pura nitroglicerina, é antológica.
O que sustenta o filme até lá, apesar de um rançoso sabor de imagens repetidas, desgastadas pela banalização, é a montagem de Kim Sang-Bum, que agiliza o que parece fotocopiado de outros filmes da própria Coreia.




















