Os fãs mais intensos de “Border” poderão se queixar de alguma perda identitária, da marca de DNA do jovem Ali Abbasi, neste novo “Holy Spider”, mas a forma como o cineasta iraniano radicado na Dinamarca cria um “persian noir” com códigos muito próprios, uma dinâmica e potencial comercial que poderia trazer para terras da Escandinávia uma nova saga ao estilo Millennium, vai continuar a mantê-lo no radar da crítica e público durante muito tempo.
E é difícil categorizar um filme como comercial quando logo no início somos confrontados graficamente com uma cena de sexo oral, mas a verdade é que a linguagem de cinema (em todas as suas vertentes, da realização à montagem) utilizada está muito mais próximo do cinema americano que iraniano, o que por si só não traz qualquer desvantagem, até porque sabemos que essa é a linguagem dominante no grande e pequeno ecrã. É que apesar do setting e história que assistimos estar agarrada ao Irão e a um serial killer (interpretado ferozmente por Mehdi Bajestani) que fez as manchetes locais no início do século XXI, o modelo e fórmula de thriller que Abbasi incute é totalmente universal no ritmo e tensão, mesmo que saibamos desde o primeiro minuto quem é o homem por trás dos assassinatos.
Na verdade, é tal como Millennium, é uma investigação jornalística que conduz a ação, com Rahimi (Zar Amir-Ebrahimi em grande forma), uma jornalista vinda da capital até Meshed (cidade iraniana próxima das fronteiras com o Afeganistão e com o Turquemenistão) para investigar a morte de várias trabalhadoras sexuais na cidade. E com ela nessa viagem vai outro jornalista, o qual vive na cidade e até recebe telefonemas do assassino em série.
Abbasi conduz-nos então por entre becos, ruelas, descampados e personagens do submundo, a sua grande maioria toxicodependentes, oferecendo imagens raras do Irão que só em “Just 6.5” (A Lei de Teerão) encontramos equivalência. “Quem vier para ver como as coisas no Irão são, e em que fase estamos da condição feminina, então este filme é uma má opção. Este é um filme noir“, disse-nos Abbasi, cumprindo a sua palavra no que toca ao género e códigos. O que ele não disse é que inevitavelmente este é também um filme político e social, até porque o assassino é a certo ponto transformado, por boa parte da população, em herói, um vigilante da moral e dos bons costumes. É particularmente feliz a forma como o cineasta trabalha essa questão através do filho mais novo do assassino, que observa as ações do pai e até se propõe a seguir o legado.
No final, temos assim um filme diferente daqueles que normalmente retratam o Irão. Não é nova essa imagem, até porque existe o tal “A Lei de Teerão”, mas a forma como Abbasi enraiza o noir na palete de cores e traços persas da paisagem e nas próprias personagens sente-se como uma lufada de ar fresco na perceção que temos do Irão e do seu cinema.




















