Belíssimo e subtil o novo filme de James Gray, uma história que pega nas palavras ameaçadoras do então candidato à presidência dos EUA, Ronald Reagan (que apregoa a chegada do Armagedão), para nos falar de privilégio, hierarquias sociais e conections. E o norte-americano faz isso de um jeito longe do óbvio, nunca caindo nos artifícios do filme-panfleto, preferindo o modelo do coming-of-age delicioso e muito pessoal, baseado na própria infância do cineasta enquanto aluno na Kew-Forest School, em Queens, Nova Iorque.
A ação decorre ainda antes de Reagan “sovar” Jimmy Carter nas eleições de 1984 e de se abrirem as portas para o domínio republicano nos EUA, acompanhando Grey uma família de classe média de origem judaica, em particular o pequeno Paul Graffenstein (grande atuação de Banks Repeta), um jovem travesso e rebelde com ambições artísticas incitadas pelo avô (Anthony Hopkins, seguro e carismático), preso num sistema educativo que o afasta da criatividade pela forma como privilegia um ensino apoiado na lógica e no racional.
Por isso mesmo, em virtude do seu afastamento dessa orientação académica profundamente ideológica (ainda hoje em vigor), os professores muitas vezes acabam por considerá-lo um “lento” na aprendizagem, condenando-o assim a passar por vários atritos na aula, uma situação recorrente e que vive juntamente com um colega afroamericano, John Crocker (Jaylin Webb, soberbo). Os dois formam uma amizade singular, marcada por frequentes castigos na escola, ainda que a forma como o sistema se apresente perante ambos, já de si oriundos de orgânicas familiares diferentes (um tem uma enorme família judaica, o outro é um órfão educado pela avó moribunda), seja dispar. Quando certo dia os dois fumam um charro e são apanhados, a família de Paul aproveita a situação para colocar um ponto final na sua passagem pela escola pública e decide transferi-lo para um colégio privado, onde já se encontra o seu irmão mais velho.
Essa escola particular, praticamente toda branca, privilegiada e preconceituosa, foi a mesma alma mater de Donald Trump, com o pai, Fred Trump, e a irmã, Maryanne Trump (Jessica Chastain), a aparecerem em cena, colocando assim em destaque a vitalidade e tradição do estabelecimento na construção de bons homens de família, e de lideres para o futuro. A pouco e pouco, Paul começa a afastar-se de John, pelo menos sob o olhar dos novos colegas, ainda que a amizade acabe sempre por falar mais alto: quando John arranja um plano para poderem ir para a Flórida, depois de ter os serviços sociais no seu encalço, Paul decide ajudar, metendo-se a dupla novamente em sarilhos, ainda que com consequências diferentes.
Do Shoa à imigração, passando pela integração na comunidade branca dominante no poder através da adaptação dos apelidos aos padrões dominantes, e sem deixar de abordar o ambiente político de uma época marcada pela tensão nuclear da Guerra Fria, um mundo com novos valores já no horizonte (e com a limpeza das ruas já a ser exigida pelos “Rudy Giulianis da vida”), Gray consegue com savoir faire mostrar as diferentes américas que se preparam para receber Reagan como seu líder e definir o rumo da nação durante décadas, uma escolha com ecos que ainda hoje se fazem sentir.
E há mesmo certas particularidades que merecem ser realçadas. Se, como é sabido, os afroamericanos, ainda no tempo da escravatura, foram desprovidos dos seus nomes africanos a favor do nome do seu dono branco, no caso dos judeus, como Paul demonstra, foram retirando os “stein” dos seus apelidos de modo a passarem despercebidos no contexto da cultura branca então dominante, um meio onde triunfaram os descendentes de irlandeses, em particular na política. Por isso, é assim que de Paul Graffenstein passa a Graff, conseguindo assim ultrapassar as dificuldades em entrar nos círculos de decisão. Por outro lado, numa outra pérola, o pai de Paul (Jeremy Strong) afirma que o filho escapou de sanções maiores porque um dia fez um trabalho de borla ao polícia que o deteu em certo momento, colocabdo em evidência o círculo vicioso e viciante em torno das decisões.
E não podemos ainda esquecer Anne Hathaway, no papel de mãe de Paul, que juntamente com Jeremy Strong poderá dar que falar na próxima temporada dos Oscars nas categorias secundárias.
E com tudo isto, Gray consegue o seu trabalho mais exemplar dos últimos anos, mantendo em todos os pontos do filme as suas marcas evocativas de um cinema perdido, mas não esquecido. E aqui com mais sarcasmo e requinte.




















