Uma das mais caudalosas experiências narrativas do Fórum da Berlinale 2022, “Rewind & Play” ousa em múltiplas escolhas narrativas ao promover a desconstrução do protocolo jornalístico de uma maneira nada usual para a tradição do cinema nos anos 2000, evocando num lugar muito particular (o da atomização da dita “verdade”) o manifesto antirretórico “Lettre de Sibérie” (1958), de Chris Marker (1921-2012).
Em Marker, uma mesma situação era vista sob pontos de vista diferentes a partir de narrações politicamente distintas. Já no filme que marca a volta às telas do senegalês nascido na França Alain Gomis, cinco depois de seu aclamado “Félicité” (Grande Prémio do Júri em Berlim, em 2017), o que vemos é uma situação factual (uma entrevista) esmiuçada, sensorialmente, até o limite das suas camadas políticas mais dissonantes. E esse esmiuçar é uma investigação dramatúrgica documental tanto nas franjas do argumento quanto nas franjas da sinestesia plástica.
Ao retrabalhar o sentido de arquivos, Gomis leva-nos à Paris de dezembro de 1969, a partir de um registo de TV, num exercício de mnemotécnica crítico. A sua matéria-prima são imagens que antecedem um concerto do génio do jazz Thelonious Monk (1917-1982), situadas no programa “Jazz Portrait”, da televisão francesa. A falta de respeito que cerca a condução de uma conversa com o músico é indisfarçável. Logo no início do que prometia ser um registo biográfico seminal, o jornalista que conduz a conversação tropeça em protocolos do seu ofício ao não considerar as respostas de Monk adequadas. Um jogo de câmara nada ortodoxo desenrola-se entre os dois, ilustrando uma certa tensão. Num canto, vemos um Thelonious educado, com um sorriso esticado, mas cansado, com a sensação de estar num campo minado que sugere, em certa medida, intolerância. No outro canto, há um entrevistador (branco) que não esconde as suas idiossincrasias. E, num dado momento, o piano irrompe em cena como um mediador entre eles.
Tal mediação, explorada pelo cineasta a partir de uma cuidadosa engenharia de som, num primor de mixagem, é uma forma de atenuar uma esgrima desigual entre um jornalista e o seu entrevistado, numa tensão que se desenha como uma guerra do ego contra a arte. Guerra que expõe a devoção quase religiosa de Thelonious pelo jazz, fazendo do ritmo a expressão da sua identidade. E isso acontece em meio a uma manifestação bastante indigesta dos engenhos dos meios audiovisuais. Thelonious passa por uma provação, recusando-se a se deixar achatar a uma abordagem caricatural. Mas a sua destreza no teclado é um bom escudo. E Gomis faz dela uma centelha reativa a um dinamismo social excludente.
“Não faço sociologia, nem folclore nos meus filmes. Faço dramas humanos que falam de pessoas que têm a capacidade de aceitar a vida como ela é, com todas as suas dificuldades, driblando as limitações atrás de alegria, de prazer”, disse o cineasta ao C7nema, na capital da Alemanha, quando lá passou com “Félicité”. Fazendo jus às suas palavras, aquela ficção que encarava o fantasma geopolítico do determinismo de uma maneira melodramática, mas com algumas conexões nítidas com o dispositivo de “Rewind & Play”. “As pessoas lutam e resistem. O meu cinema é sobre elas”, disse o realizador, que perfila Thelonious, em sua nova e inquieta longa-metragem como um resiliente.



















