No universo dos festivais de cinema, “The Plains” terá certamente uma vida longeva tal o arrojo da sua repetitiva proposta: um filme de três horas quase totalmente passado dentro de um carro, onde acompanhamos, durante várias viagens ao longo de um ano, Andrew, um homem de meia-idade que trabalha num centro jurídico comunitário e que conduz pelos subúrbios de Melbourne normalmente na hora de ponta.

Apenas três variações de imagens amolecem uma estrutura rígida em toda a sua formalidade, a qual praticamente se sustenta numa câmara no banco de trás que capta tudo o que vai acontecendo dentro do carro, sejam as conversas ao telefone, ou os diálogos com o pendura, que muitas vezes é um colega mais novo de Andrew. Ao longo destes tempos e sucedendo-se as conversas, a interação entre os dois é cada vez mais pessoal, aumentando o volume de temas delicados a abordar, entrando-se na esfera pessoa, mas na verdade tudo isso só interessa como exercício de pseudo-voyarismo existencial encapotado num docudrama.

Talvez por isso mesmo, “The Plains” esbarre num verdadeiro sentido das sua própria existência. Propõem-se a ser uma espécie de ilusão “ED TV” dentro de um carro, mas servindo o percurso também para assistir a aborrecidos eventos na estrada (trânsito) ou ouvir notícias pela rádio, que dão temporalidade ao período que foi filmado e estabelecem conexão ao mundo que as personagens estão inseridas.

O cinema tem oferecido ao longo dos tempos um uso abismal do automóvel como objeto ao seu serviço. Se todo o subgénero dos road movies se serviu sempre das suas viaturas como ferramenta para trafegar por entre paisagens humanas e sociais dos mais variados locais, outras obras passadas exclusivamente nelas, como “Ten” (2002) de Abbas Kiarostami, “Taxi” de Jafar Panahi (2015) e “Locke” (2013) usaram os veículos como um microcosmos onde tudo ocorria, do descalabro da vida de um homem, para o de uma sociedade castradora e injusta para os seus habitantes.

Ao invés, “The Plains” é uma jornada totalmente construída para festivais de cinema. As vidas que passam pela viatura, e as suas histórias privadas, não são mais que meras desculpas para um exercício rotineiro e desinteressante. E não fossem aqueles cortes – de um mundo de drones e mapeação das planícies geográficas e humanas (a vida do nosso protagonista é plana) que nos levam dali – e a inocuidade derivativa (e o aborrecimento) de todo o projeto seria ainda maior.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-plains-uma-jornada-de-observacao-hibrida-construida-para-festivais-de-cinemaAs vidas que passam pela viatura, e as suas histórias privadas, não são mais que meras desculpas para um exercício voyeur derivativo e rotineiro.